A Câmara Municipal de Cuiabá parece travar uma batalha que não consegue vencer: a luta para se livrar da fama de “Casa dos Horrores”.
Ao longo dos anos, vereadores entram, vereadores saem, partidos mudam e novas promessas são apresentadas aos eleitores. O que permanece praticamente inalterado é a sucessão de episódios que desgastam a imagem do Legislativo municipal.
A cada eleição surge o discurso da renovação política.
Os candidatos prometem uma Câmara mais técnica, mais séria e mais comprometida com os interesses da população.
Por algum tempo, a esperança encontra espaço entre os eleitores.
Mas basta o início de uma nova legislatura para que velhos problemas voltem a ocupar o noticiário.
Nos últimos meses, a população assistiu a mais um capítulo dessa história.
Uma fala ofensiva captada por microfone aberto durante sessão plenária ganhou repercussão e provocou indignação dentro e fora do meio político.
Pouco antes, outro episódio já havia colocado a Câmara no centro das atenções após um gesto obsceno protagonizado por uma parlamentar durante uma discussão.
Em qualquer instituição pública, situações como essas já seriam suficientes para provocar desgaste.
Mas, no caso da Câmara de Cuiabá, elas acabam se somando a um histórico muito maior.
A crise de imagem vai além dos comportamentos inadequados em plenário.
Ela também é alimentada por investigações policiais, denúncias de corrupção e afastamentos judiciais que atingiram diretamente integrantes da própria Casa de Leis.
A Operação Perfídia, por exemplo, levou ao afastamento de vereadores acusados de participação em um suposto esquema envolvendo pagamento de propina para aprovação de medidas de interesse empresarial.
Independentemente do desfecho judicial, o simples fato de integrantes da Mesa Diretora terem seus nomes ligados a uma investigação dessa magnitude já representa um duro golpe para a credibilidade institucional.
Enquanto isso, problemas reais continuam aguardando soluções.
A população espera respostas para questões relacionadas à saúde pública, mobilidade urbana, infraestrutura, educação e segurança.
No entanto, frequentemente o debate político acaba soterrado por polêmicas que nada acrescentam à vida dos cidadãos.
O mais preocupante é que o apelido “Casa dos Horrores” não nasceu agora.
Ele atravessou legislaturas, resistiu à troca de presidentes e sobreviveu à chegada de sucessivas gerações de vereadores.
Isso demonstra que o problema não está apenas em nomes específicos.
Existe uma percepção popular de que a Câmara enfrenta uma dificuldade histórica para construir uma cultura institucional baseada em ética, respeito e responsabilidade pública.
Muitos vereadores certamente discordam dessa avaliação.
Outros podem até considerar injusto que toda a instituição seja julgada pelos erros de alguns de seus integrantes.
Mas a imagem pública é construída pelos fatos que chegam ao conhecimento da sociedade.
E os fatos mais recentes continuam reforçando exatamente aquilo que a Câmara tenta combater.
Talvez alguns parlamentares sonhem em derrubar de vez a placa imaginária que identifica o Legislativo cuiabano como a “Casa dos Horrores”.
Mas isso não será feito por discursos inflamados nem por campanhas de marketing político.
A única demolição capaz de acabar com esse apelido seria a demolição das práticas que deram origem a ele.
Seria necessário substituir escândalos por resultados, confrontos por debates qualificados, interesses pessoais por compromisso público e suspeitas por transparência.
Enquanto isso não acontecer, a velha alcunha continuará resistindo.
E continuará lembrando aos cuiabanos que reconstruir a confiança da população é uma obra muito mais difícil do que conquistar uma cadeira no plenário da Câmara Municipal.





























