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João Edisom de Souza

Político que não propõe, ataca

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Em toda eleição aparecem candidatos com mais facilidade para explicar por que o adversário não deveria ser eleito do que para dizer por que eles próprios merecem o voto. Em vez de apresentar trajetória, competência, propostas e soluções, constroem a campanha em torno da crítica, da suspeita e da desqualificação dos concorrentes.

A crítica política é legítima e necessária à democracia. O eleitor tem direito de conhecer erros, contradições e fatos relevantes sobre quem pretende exercer uma função pública. O problema começa quando a fiscalização é substituída pela política da depreciação: deixam-se de confrontar ideias para tentar destruir reputações.

Processos não concluídos são apresentados como condenações, suspeitas viram certezas, versões tornam-se fatos e, no extremo, surgem boatos e fake news. A lógica parece simples: se não consigo crescer mostrando quem sou, tento crescer diminuindo o outro.

A Psicologia Social e a Ciência Política ajudam a compreender o fenômeno. Quando o candidato não consegue responder claramente “quem sou?”, “o que já fiz?” e “o que pretendo fazer?”, o adversário passa a ocupar o centro de sua narrativa.

É a campanha pela comparação negativa: não precisam gostar de mim; basta rejeitarem mais o outro. Isso não significa necessariamente baixa autoestima, mas pode revelar insegurança política, ausência de diferenciais ou dificuldade para convencer o eleitor pelas próprias qualidades.

Existe também uma razão estratégica. Medo, indignação e raiva mobilizam. Uma acusação costuma gerar mais repercussão nas redes sociais do que uma discussão sobre emprego, saúde, educação ou infraestrutura. O ataque produz conflito, o conflito gera compartilhamento e traz visibilidade. O perigo é confundir ser conhecido com ser reconhecido como preparado.

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Se tirarmos o adversário, o que sobra? Essa talvez seja a pergunta fundamental diante de uma campanha negativa: se retirarmos o nome dos adversários do discurso desse candidato, o que sobra?

Sobram propostas, experiência, projetos, conhecimento, capacidade administrativa e visão de futuro? Se quase nada permanece, existe um problema. O candidato construiu sua identidade não pelo que representa, mas por aquilo que combate.

É como um vendedor incapaz de explicar as qualidades do próprio produto e que passa o tempo atacando os concorrentes. Em algum momento, o consumidor perguntará: “Já entendi por que não devo comprar o produto dele. Agora explique por que devo comprar o seu.”

Algumas estratégias parecem partir da ideia de que o eleitor não verificará informações e poderá ser convencido apenas pela repetição. É uma aposta perigosa na desinformação.

Existe enorme diferença entre informar sobre o adversário e inventar sobre ele. Apresentar fatos comprovados, questionar decisões e confrontar propostas fazem parte da democracia. O que não pode ser normalizado é transformar suspeita em sentença, processo em condenação ou imaginação em notícia.

É falta de capacidade? Em alguns casos, pode ser. Construir propostas exige conhecimento sobre orçamento, legislação, economia, saúde, educação, segurança e os problemas reais da população. Atacar é muito mais fácil.

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Para apresentar uma política de geração de empregos é preciso estudar. Para discutir desenvolvimento é necessário compreender investimentos, produtividade e infraestrutura. Para produzir um ataque, muitas vezes bastam uma frase provocativa e um celular.

Campanhas exclusivamente negativas podem, portanto, esconder um vazio programático: quanto menos conteúdo existe para apresentar, maior a tentação de preencher o espaço com conflito.

A democracia perde qualidade quando a eleição deixa de ser uma disputa pelo melhor e se transforma numa competição para escolher o menos rejeitado.

Uma campanha madura deve apresentar realizações, valores, qualidades, propostas e soluções. E, quando criticar adversários, fazê-lo com fatos verificáveis.

Talvez a pergunta que o eleitor deva fazer em 2026 seja: o candidato está pedindo meu voto pelas qualidades que possui ou pelos defeitos que atribui aos outros?

Destruir reputações é fácil. Difícil é apresentar caminhos, transformar propostas em políticas públicas e produzir resultados.

Ao final, o eleitor deveria exigir uma resposta simples: “Já entendi tudo o que você pensa sobre seus adversários. Agora me diga: por que eu deveria votar em você?”

*João Edisom de Souza é professor universitário e analista Político.

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