O escândalo do Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro, continua revelando conexões entre o mercado financeiro, grandes empresas, Judiciário e personagens que circulam nos tribunais superiores. Uma dessas trilhas passa pela Ambipar, companhia que entrou no radar das investigações sobre operações com fundos ligados ao banqueiro. Documentos da Comissão de Valores Mobiliários identificaram a participação de fundos associados ao universo do Master na aquisição de ações da empresa, em operações que movimentaram milhões de papéis. Os desdobramentos judiciais dessas relações financeiras conduzem a outro ambiente que merece atenção: a proximidade entre grandes escritórios de advocacia e integrantes do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A Ambipar aparece em processos nos quais também figura a Laspro Consultores, ligada ao advogado Oreste Nestor de Souza Laspro. Em uma impugnação de crédito na Justiça paulista, a empresa de Laspro atuou como administradora judicial, enquanto a Ambipar figurava como requerente. Em outra recuperação judicial, a Ambipar e o escritório Leite, Tosto e Barros apareceram entre os credores. Os registros demonstram que as bancas defenderam interesses de Vorcaro conjuntamente pela Ambipar, revelam pontos de contato processual entre empresas e profissionais que também aparecem em outros círculos de influência jurídica.

É nesse ambiente que surge Patrícia Rios Salles de Oliveira, sócia-administradora do Leite, Tosto e Barros. Advogada experiente e influente nos tribunais superiores, Patrícia atua em disputas empresariais e financeiras, participa de sustentações orais e representa fundos de investimento em processos submetidos ao STJ. Sua desenvoltura profissional é acompanhada por relações sociais e associativas com integrantes da Corte. O aspecto mais delicado dessa proximidade não está apenas nos encontros pessoais, mas na posição que ocupa ao lado de magistrados responsáveis por julgar interesses defendidos pela advocacia privada.

Patrícia (foto) é diretora financeira do Instituto Brasileiro de Estudos e Desenvolvimento de Direito Empresarial, associação privada que reúne seis ministros do STJ e dois advogados que atuam perante a própria Corte. O presidente é João Otávio de Noronha (foto). Integram também a entidade Raul Araújo Filho, Sebastião Alves dos Reis Júnior, Luiz Alberto Gurgel de Faria, Paulo Dias de Moura Ribeiro e Marcelo Navarro Ribeiro Dantas. Com eles estão Patrícia e Oreste Laspro. A assembleia de 13 de agosto de 2024 reuniu os oito integrantes, com suas respectivas assinaturas.

O detalhe mais desconfortável está no endereço. A associação dos seis ministros está cadastrada no SAS, Quadra 1, Bloco M, salas 902 a 904, em Brasília, exatamente o endereço divulgado pelo escritório Leite, Tosto e Barros. O cadastro da entidade utiliza ainda o e-mail profissional de Patrícia. A advogada que representa interesses financeiros relevantes perante o STJ também administra as finanças de uma associação integrada por magistrados do mesmo tribunal. A coincidência exige explicações sobre a estrutura financeira da entidade, a utilização das instalações e os mecanismos de prevenção de conflitos de interesses.
A questão ganha dimensão concreta quando se abrem os processos. No AREsp 2.510.785/SP, Patrícia aparece entre os advogados da parte agravada. O relator era João Otávio de Noronha, presidente da associação. Raul Araújo, outro integrante da entidade, participou do julgamento. A Quarta Turma rejeitou o recurso da parte adversária, preservando a posição processual do cliente representado pela advogada. Dois ministros que dividem com Patrícia a administração de uma associação privada participaram de um julgamento favorável aos interesses defendidos por ela.
Em junho de 2026, a relação entre a banca e um integrante da associação apareceu de maneira ainda mais direta. No AREsp 3.054.949/SP, o próprio Leite, Tosto e Barros Advogados Associados figurava como parte em disputa sobre honorários advocatícios. Patrícia estava entre os advogados e realizou sustentação oral. O relator era Paulo Dias de Moura Ribeiro, integrante do Instituto. O recurso do escritório foi rejeitado. A decisão não representou vitória financeira da banca, mas documentou uma circunstância que merece atenção: um ministro julgando interesses patrimoniais de um escritório cuja sócia administra, ao lado dele, uma associação privada.
Os valores envolvidos na atividade profissional dos dirigentes da entidade estão longe de ser modestos. No REsp 1.748.147/SP, uma disputa relacionada a R$ 2,6 bilhões da massa falida do Banco Cruzeiro do Sul chegou ao STJ com atuação da Laspro Consultores, ligada a Oreste Laspro. Raul Araújo, integrante da associação, participou do julgamento. A decisão impôs restrições aos repasses discutidos, sem representar uma vitória financeira automática para Laspro. O processo, entretanto, expõe a dimensão bilionária dos interesses submetidos ao tribunal em causas nas quais atua um dos dirigentes da entidade.
No caso de Patrícia, a atuação alcança fundos de investimento e disputas patrimoniais de grande relevância econômica. No REsp 2.120.433/SP, a advogada representou o FIDC NPL I e realizou sustentação oral perante a Terceira Turma. O relator era Ricardo Villas Bôas Cueva, e o fundo obteve decisão favorável por unanimidade. Paulo Dias de Moura Ribeiro, integrante da associação, acompanhou o relator. No REsp 2.228.456/SP, Patrícia voltou a defender o mesmo fundo em processo relatado por Cueva. A decisão preservou a posição de seu cliente. Moura Ribeiro também participou, mas ficou vencido.
O outro advogado do Instituto também aparece em processos julgados por integrantes da associação. No AgInt no AREsp 3.103.173/PB, a massa falida do Banco Cruzeiro do Sul estava representada pela Laspro Consultores, com Oreste Laspro como advogado. O relator era Raul Araújo, e o recurso da parte adversária foi rejeitado. Em outro julgamento, no AgInt no REsp 2.089.776/SP, Oreste representava a mesma massa falida em controvérsia patrimonial relatada por Raul. A relação associativa entre advogado e magistrado torna relevante conhecer os mecanismos adotados para prevenir potenciais conflitos de interesses.
O quadro ganha sensibilidade adicional com Paulo Dias de Moura Ribeiro, cujo nome aparece em investigação da Polícia Federal, autorizada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF, sobre suspeitas de venda de decisões judiciais no STJ. A investigação continua a fundo pela Polícia Federal que busca provas do envolvimento se a participação do magistrado no esquema investigado. Moura Ribeiro negou envolvimento em práticas criminosas.
A investigação criminal não se confunde com a questão ética exposta pelos documentos. O problema institucional está na sobreposição entre relações associativas, interesses econômicos e atividade jurisdicional, especialmente quando envolve magistrados responsáveis por julgar disputas de grande repercussão patrimonial.
A desenvoltura de Patrícia Rios nos corredores do STJ não se resume às sustentações orais, aos processos de interesses milionários ou à condição de sócia de uma banca influente. A advogada também transita no ambiente social de integrantes da Corte e divide com seis ministros a administração de uma associação privada. O que para outros profissionais da advocacia poderia representar uma relação estritamente institucional, no caso de Patrícia alcança também encontros pessoais e comemorações reservadas.
O WhatsApp, esse inconveniente arquivo das relações de poder, preservou uma amostra dessa intimidade. Em 28 de maio de 2023, aniversário do ministro Ricardo Villas Bôas Cueva (foto), Patrícia assumiu a organização de uma comemoração. “Organizei um bolinho com champagne para o Cueva… coitado passar o aniversário assim”, escreveu. A lista de convidados também passou por suas mãos. “Avisei Gurgel, Moura e Raul”, informou, referindo-se aos ministros Luiz Alberto Gurgel de Faria, Paulo Dias de Moura Ribeiro e Raul Araújo. Em seguida, tranquilizou o interlocutor: “Assim que chegarmos já estará tudo pronto”. A última recomendação veio em letras maiúsculas: “SEGREDO!”.

A discrição pretendida não resistiu às mensagens e fotografias obtidas pelo Fatos Online. O episódio revela uma advogada suficientemente próxima de integrantes do tribunal para organizar uma comemoração particular, comunicar os convites e cuidar dos preparativos. Não demonstra influência sobre votos ou decisões. Mas oferece uma dimensão pessoal à relação que os documentos da associação e os registros processuais já haviam exposto.
O detalhe mais significativo está nos nomes. Gurgel, Moura Ribeiro e Raul Araújo, mencionados por Patrícia na conversa, posteriormente passaram a integrar com ela a administração do Instituto Brasileiro de Estudos e Desenvolvimento de Direito Empresarial. Cueva, o aniversariante, relatou processos nos quais a advogada representou fundos de investimento e obteve decisões favoráveis aos clientes. Moura Ribeiro participou desses julgamentos, acompanhando o relator em um deles e ficando vencido em outro.
A proximidade profissional também aparece publicamente. Em outubro de 2025, durante sessão da Terceira Turma, um advogado pediu que o julgamento fosse adiado por alguns instantes para permitir que Patrícia retornasse de uma sessão na Quarta Turma. Moura Ribeiro, relator, considerou razoável o pedido. O episódio ilustra a rotina de uma profissional que atua simultaneamente em diferentes colegiados do tribunal, sem demonstrar, por si só, tratamento privilegiado.
Patrícia tem experiência profissional e relações sociais documentadas com magistrados. O que exige explicações não é sua capacidade de circular pelo tribunal, mas a convivência dessa atividade com a administração financeira de uma associação privada integrada por seis ministros e instalada no mesmo endereço de seu escritório. A independência judicial exige transparência sobre relações capazes de suscitar dúvidas legítimas quanto à igualdade de tratamento entre as partes.
Entre o champanhe do aniversário, os processos de fundos de investimento, as decisões judiciais e a diretoria financeira da associação, há uma sequência de relações que merece ser examinada sem complacência. Há, porém, razões suficientes para exigir transparência sobre os limites entre a convivência privada e o exercício da magistratura.
O bolo era para Cueva. Os convites passaram por Patrícia. Três dos ministros mencionados acabaram dividindo com ela a administração de uma associação privada. E os processos continuam chegando ao STJ. A festa terminou, mas a obrigação de explicar essas relações permanece.




























