Na política, gestos raramente são inocentes. Palavras menos ainda.
A mensagem publicada pelo ex-governador Ibaneis Rocha desejando pronta recuperação à governadora Celina Leão foi recebida por parte da opinião pública como demonstração de civilidade institucional. Nos bastidores do poder, entretanto, a leitura foi menos romântica e muito mais política.
Não faz tanto tempo que a relação entre os dois deixou de ser tratada como uma divergência discreta de gabinete. O que durante meses foi administrado em conversas reservadas acabou vindo à superfície. E quando veio, trouxe junto algo que Brasília conhece bem: a disputa pelo controle do poder.
Celina decidiu responder. E respondeu como governadora, não como sucessora. Ao rebater declarações e marcar posição diante de temas sensíveis da administração, deixou claro que não pretendia exercer o papel de mera depositária de um legado político. O recado foi compreendido dentro e fora do Palácio do Buriti.
Desde então, a imagem de unidade construída ao longo dos últimos anos começou a apresentar rachaduras visíveis. A antiga fotografia dos tempos de campanha passou a conviver com uma realidade mais complexa, marcada por diferenças de avaliação, prioridades administrativas e interesses eleitorais.
É nesse cenário que a manifestação de Ibaneis ganha significado político.
Não porque desejou recuperação à governadora. Isso seria o mínimo esperado entre duas lideranças que dividiram o mesmo projeto de poder. O que chamou atenção foi o simbolismo da mensagem e o momento escolhido para transmiti-la.
Na política, há ocasiões em que um gesto representa exatamente o que aparenta. Há outras em que representa aquilo que se deseja reconstruir.
Por isso, a publicação foi interpretada por muitos observadores como uma tentativa de recompor uma imagem que sofreu desgaste diante dos acontecimentos recentes. Uma tentativa de restaurar a fotografia da harmonia quando a realidade já passou a exibir sinais evidentes de distanciamento.
Brasília costuma ser generosa com alianças. Também costuma ser impiedosa quando elas deixam de servir aos seus protagonistas.
O eleitor talvez não acompanhe cada reunião reservada, cada conversa de corredor ou cada movimento interno dos partidos. Mas costuma perceber quando um roteiro muda. E o roteiro mudou.
A questão que permanece aberta não é se existe respeito institucional entre Celina e Ibaneis. Isso continuará existindo por força das circunstâncias e da própria história política de ambos.
A questão é outra.
Trata-se de saber se ainda existe a mesma aliança política que durante anos sustentou o grupo que governou o Distrito Federal ou se o que se vê agora é apenas o esforço de preservar uma imagem cuja força já não corresponde à realidade dos fatos.
Em Brasília, máscaras raramente caem de uma vez. Elas escorregam aos poucos. E, quando isso acontece, quase sempre aparece alguém disposto a recolhê-las do chão.





























