Os temporais que atingiram a Zona da Mata mineira, deixando ao menos 3 mil pessoas desabrigadas, cerca de 400 desalojadas e 47 mortos, evidenciam a combinação entre mudanças climáticas e falhas históricas de gestão pública. A avaliação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil, que apontam fatores climáticos e humanos como responsáveis pelas chuvas intensas registradas em Juiz de Fora e Ubá, marcadas por enxurradas, deslizamentos de terra e cheias acima do normal.
“Quando falamos de extremos e riscos ambientais, estamos falando de mudanças climáticas”, afirma o geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Segundo ele, a prevenção passa pela adoção consistente de políticas públicas ambientais, agenda que, nos últimos anos, foi relegada a segundo plano. “Essa onda negacionista em relação às mudanças climáticas reverbera agora em desastres como esses”, avalia.
Especialista em hidrologia, geografia física e riscos socioambientais, Felippe destaca que eventos extremos tendem a se tornar cada vez mais frequentes. Para ele, a negligência ocorre em diferentes níveis de governo, no Brasil e no exterior, onde a pauta climática e o planejamento urbano são frequentemente apresentados como entraves ao desenvolvimento econômico. “Essa falsa oposição segue sendo explorada como ativo político”, analisa.
Apesar disso, o professor ressalta que é justamente na política que estão as soluções. Ele defende o ordenamento urbano como ponto de partida e critica a perda de controle do poder público sobre o uso do solo, hoje fortemente influenciado pelo capital imobiliário. “É o mercado que define quem mora onde. As populações mais pobres acabam empurradas para áreas de maior risco ambiental”, afirma. Em Juiz de Fora, segundo ele, as regiões com maiores perdas humanas e materiais coincidem com bairros de menor renda, onde a capacidade de recuperação é reduzida.
Felippe lembra que as áreas de risco são conhecidas, mas ações de mitigação esbarram na escassez de recursos. Levantamento do jornal O Globo, com dados do Portal da Transparência, aponta que os recursos destinados à Defesa Civil de Minas Gerais caíram de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões entre 2023 e 2025, período que coincide com o segundo mandato do governador Romeu Zema. Procurado, o governo estadual não se manifestou.
Além da infraestrutura, o especialista defende políticas de resiliência que incluam a conscientização da população. “Muitos moradores não sabem como agir diante de alertas geológicos. É preciso ir a campo, orientar, estabelecer planos de contingência claros”, recomenda.
A maior parte das vítimas dos temporais registrados na segunda-feira (23) está em Juiz de Fora, município com uma das maiores proporções de moradores em áreas de risco, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Em apenas um dia, choveu quase o volume esperado para todo o mês de fevereiro, com impactos concentrados nos bairros Morro do Imperador, Paineiras e Parque Burnier.
Combinação de riscos
A topografia montanhosa da cidade, naturalmente suscetível a deslizamentos e inundações, ajuda a explicar a frequência de alertas emitidos pelo Cemaden. De acordo com o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do órgão, a posição geográfica de Juiz de Fora favorece a chegada de umidade vinda do oceano. “O Oceano Atlântico está cerca de 3 °C acima do normal na costa, o que aumenta a evaporação e a intensidade das chuvas ao encontrar as áreas de montanha”, explica.
Para Seluchi, o aquecimento global está na raiz do problema. “Temos mais umidade do que o habitual nesta época, consequência direta do aquecimento global”, afirma. Ele critica o descumprimento de acordos internacionais de redução de emissões e avalia que o caminho agora é a adaptação. “Tornar as cidades resilientes é muito mais difícil, mas necessário. Em alguns casos, retirar as pessoas das áreas de risco é a única alternativa.”
Como exemplo, Seluchi cita o Japão, onde a população é treinada para evacuar rapidamente em situações de emergência. “As pessoas já conhecem as rotas de fuga; não dependem de resgates individuais”, compara.
Resiliência urbana
Na avaliação do professor Matheus Martins, da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), soluções de engenharia também são fundamentais. Ele lembra que Juiz de Fora se expandiu das margens do Rio Paraibuna para as encostas, o que aumenta a vulnerabilidade a cheias e deslizamentos.
Entre as alternativas, Martins cita a implantação de pôlderes — estruturas que isolam áreas sujeitas a inundações com muros e utilizam bombas para controlar o nível da água, técnica comum na Holanda. Outra possibilidade é a criação de parques em áreas de várzea e o aumento da permeabilidade do solo urbano. “Em áreas florestadas, até 90% da água da chuva é absorvida pelo solo. Nas cidades, ocorre o inverso: quase tudo vira escoamento superficial”, explica.
A prefeitura de Juiz de Fora possui estudos para intervenções em bairros específicos, mas as obras ainda não foram concluídas. Entre 2024 e 2025, o governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas por meio do Novo PAC, embora apenas R$ 1,2 milhão tenha sido efetivamente liberado até o momento. Também está previsto um repasse de R$ 356 milhões para obras de drenagem urbana, que integram o projeto de macrodrenagem Juiz de Fora + 100, abrangendo bairros como Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata.





























