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GABRIEL NOVIS NEVES

Dinheiro na mão é vendaval

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Recebi um pagamento e não senti a antiga euforia.

O dinheiro continua necessário, claro.

Mas perdeu o brilho que tinha na juventude.

Hoje valorizo mais o tempo do que o saldo.

Talvez esse seja um dos sinais discretos da maturidade.

Na velhice tenho mais dificuldade de lidar com o dinheiro do que na juventude.

Sempre tratei o dinheiro com respeito e parcimônia, para não enfrentar humilhações financeiras no fim da vida.

Nunca fui de exibir carrões, mansões ou viagens intercontinentais.

Fui educado em uma família simples, onde jamais faltou o essencial.

Uma das lembranças mais felizes que guardo é de 1958, quando escrevi para minha mãe dizendo que meu pai não precisava mais me enviar mesada.

Senti uma euforia que o tempo tratou de suavizar.

Mesmo estudando em faculdade pública, com restaurante universitário, havia despesas com pensão, transporte e livros.

Fiz concursos e trabalhei como auxiliar acadêmico no Pronto-Socorro Municipal, interno plantonista da Maternidade Pro Matre e monitor de Ginecologia.

Todos esses cargos ajudavam, direta ou indiretamente, na minha manutenção.

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Naquela época, meu irmão Pedro estudava Economia em faculdade particular e ainda recebia mesada, aumentando o peso sobre meu pai — ainda mais com a chegada do meu irmão Inon.

Recordar aquela carta ainda hoje me faz bem.

Todo o esforço do meu pai valeu a pena: colheu dois médicos e um economista.

Eduquei meus filhos, todos com formação universitária, procurando dar o exemplo de uma vida confortável, porém sem excessos.

A longevidade aumenta as despesas da casa: médicos, farmácia, cuidadoras.

Ontem recebi o dinheiro dos aluguéis sem a euforia da juventude.

Já estava todo comprometido com despesas previamente calculadas.

Com o encerramento das atividades do consultório, minha renda diminuiu.

Talvez por isso o dinheiro tenha perdido o encanto — não a importância.

Hoje compreendo: o dinheiro já não emociona como antes, porque o verdadeiro patrimônio passou a ser o tempo vivido.

E tempo, diferente do dinheiro, não admite economia — apenas gratidão.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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