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GABRIEL NOVIS NEVES

Mesa posta com estudos

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No pequeno quarto da pensão havia uma mesa simples, onde eu passava grande parte do meu tempo.

Sobre ela se acumulavam livros, cadernos e anotações da faculdade.

Era ali que eu revisava as aulas do dia e me preparava para provas que nunca pareciam poucas.

Muitas noites avançavam silenciosas enquanto eu percorria páginas e mais páginas de Medicina.

Aquela mesa modesta acabou se tornando uma fiel companheira da minha vida de estudante.

Eu lia com os olhos e compreendia, enquanto alguns colegas preferiam estudar em voz baixa.

Havia os que varavam a noite inteira, e outros que dormiam cedo para estudar na madrugada.

No período do vestibular, os estudos se tornaram ainda mais intensos.

A formação ginasial e científica em Cuiabá deixava lacunas, sobretudo quando comparada à dos colegas do Rio, vindos de colégios como Santo Inácio ou Pedro II.

Muitos deles sequer precisavam de cursinho para enfrentar o disputadíssimo vestibular de Medicina.

Lembro-me bem da pequena mesa onde estudava, saindo apenas para o cursinho na Cinelândia.

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O trauma do vestibular foi tão grande que, por momentos, cheguei a imaginar um acidente que me livrasse daquela pressão.

Eu era o primogênito e carregava, em silêncio, a obrigação de ser aprovado —ainda mais com a confiança que meus pais depositavam em mim.

Durante anos sonhei com o vestibular.

Eram pesadelos que me despertavam no meio da noite.

Mas a vida segue, e as preocupações apenas mudam de nome.

Vieram os desafios do exercício da Medicina no interior, ainda carente de recursos.

A ultrassonografia gestacional, hoje tão comum, só chegou duas décadas depois do meu retorno a Cuiabá.

Naquele tempo, atendíamos pacientes indigentes e pagantes em consultórios simples, com os meios que tínhamos.

Depois vieram as preocupações com os filhos, os netos e os bisnetos.

Agora, chegam as reflexões sobre a própria velhice e os cuidados que ela exige, mesmo quando a saúde se mantém firme.

Hoje, no escritório do meu apartamento, diante da mesa do computador, volto a passar grande parte do meu tempo.

Já não estudo para provas — estudo a memória.

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E transformo lembranças em crônicas.

No fim, a mesa mudou.

Mas continuo o mesmo aprendiz da vida.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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