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VEJA

Mídia Nacional: Aberta a tampa do esgoto

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Uma negociação rocambolesca, silenciosa e costurada nos bastidores e amparada por títulos podres ligados ao Banco Master, colocou o tradicional Correio Braziliense no centro de uma ofensiva financeira que pode redesenhar o mapa da mídia nacional. O jornal, principal herdeiro dos Diários Associados e afundado em dívidas trabalhistas e fiscais, tornou-se alvo de um grupo articulado por banqueiros que buscavam ampliar sua influência política e informativa a partir de Brasília.

A operação, inicialmente conduzida de maneira discreta, veio à tona quando o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) e a Fenaj reagiram prontamente à movimentação. À frente das tratativas aparecia o empresário Flávio Carneiro, personagem já citado na Operação Carne Podre, da Polícia Federal, e apontado como representante informal de banqueiros interessados em adquirir ativos de mídia em situação financeira delicada por meio de negociações baseadas em precatórios e dívidas antigas dos Diários Associados — os chamados “títulos podres”.

Estratégia nacional financiada por ativos de risco

Segundo apurações, a ofensiva sobre o Correio Braziliense fazia parte de um plano de expansão que incluía sites, rádios, TVs e jornais em diferentes regiões do país. O movimento já havia começado com a compra da operação digital da revista IstoÉ, seguida da aproximação com o Estado de Minas e da aquisição do jornal O Tempo, em Minas Gerais.

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Flávio Carneiro, que em Brasília operava em nome de Daniel Vorcaro, propôs cifras milionárias ao Correio Braziliense. A negociação avançou até se tornar pública, momento em que Vorcaro recuou formalmente. Ainda assim, Carneiro seguiu com as articulações, amparado em aportes já realizados em contas vinculadas às dívidas trabalhistas do jornal

Apesar do barulho, o Sindicato afirma que os recursos — supostamente provenientes de operações com títulos desvalorizados ou precatórios — já estavam disponíveis, o que poderia destravar acordos com trabalhadores que aguardam há anos por seus direitos.

A prisão que expôs o esquema

O projeto expandido de controle midiático ruiria dias depois, quando o também banqueiro e investidor Daniel Vorcaro, aliado direto de Carneiro, foi preso ao tentar embarcar para Dubai. Vorcaro vinha usando participação em múltiplos veículos de comunicação para construir um cinturão de proteção política e econômica para si e para o Banco Master.

Entre seus investimentos estavam o Brazil Journal, os produtos digitais da IstoÉ e da IstoÉ Dinheiro, o portal PlatôBR, além do site de celebridades de Léo Dias. Em paralelo, tentava assumir o controle do Correio Braziliense e do Estado de Minas, também usando títulos de baixa liquidez para negociar dívidas bilionárias.

A estratégia de comunicação era acompanhada de aproximação intensa com figuras influentes do centrão, como Ciro Nogueira e Michel Temer, numa tentativa de reverter a decisão do Banco Central, que havia barrado a venda do Banco Master para um consórcio que incluía a empresa Fictor e investidores dos Emirados Árabes.

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A resposta do Banco Central foi dura: decretou a liquidação do Banco Master e, no dia seguinte, determinou a prisão de Vorcaro. Curiosamente, veículos de comunicação ligados ao empresário demoraram a noticiar o caso. O jornalista Geraldo Samor, fundador do Brazil Journal, negou sociedade com Vorcaro e afirmou manter independência editorial.

Impasse segue sem solução

Enquanto isso, a negociação envolvendo o Correio Braziliense permanece suspensa, sem definição sobre o futuro do jornal e dos trabalhadores. No centro da disputa está o uso de títulos podres do Banco Master como moeda de troca — uma manobra contestada por especialistas, sindicatos e setores da Justiça.

O episódio expõe a fragilidade de veículos tradicionais diante de dívidas acumuladas e, ao mesmo tempo, revela a tentativa de novos grupos financeiros de usar a imprensa como instrumento de influência política, especialmente em Brasília.

Com o avanço das investigações e a queda do Banco Master, o projeto de expansão pode não sobreviver. Mas seus efeitos sobre o mercado de mídia e sobre a credibilidade de instituições financeiras e jornalísticas devem se estender por muito mais tempo.

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