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MODELO AUTORITÁRIO

O “fazimento” de Otaviano Pivetta e o desprezo à voz do povo;veja forças e fraquezas

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O governador Otaviano Pivetta (Republicanos) usa um mote eleitoral que expõe forças e fraquezas. Ele se autodeclara um político do “fazimento”, uma variação que entorta a língua portuguesa para significar “fazer” ou “realizar”. À primeira vista é uma estratégia de comunicação política inteligente, mas que carrega armadilhas argumentativas clássicas da retórica dos poderosos. Contém um evidente viés de populismo autoritário. Ou seja, “fazimento” é em si um argumento que despreza a voz do povo. Um argumento autoritário, antidemocrático na essência. O poderoso está ocupado em fazer, acha que perde tempo em ouvir, dialogar e pensar de forma coletiva no interesse de todos.

Diante da série de escândalos do governo Mauro Mendes (União), do qual Otaviano foi vice, o “fazimento” revela a sua maior fraqueza como argumento de apelo eleitoral. Mauro fez, Otaviano vai fazer? O primeiro “fazimento” precisa ser muito explicativo:

1) O candidato Otaviano Pivetta terá muito o que explicar sobre o Escândalo da Oi, o Escândalo do Parque dos Bilionários, o Escândalo na Saúde, entre outros;

2) O candidato Otaviano Pivetta terá muito o que explicar sobre o “desfazimento” do governo em relação à falta de ações competentes para o combate contra a matança de mulheres e contra a violência doméstica.

Quando um governante de plantão de viés autoritário centraliza seu discurso na ideia do “fazimento”, em óbvio, tenta projetar uma imagem de gestor puramente técnico e focado em entregas, sejam obras, estradas, infraestrutura. Redutor do debate, o termo “fazimento” carrega falácias embutidas nesse argumento. É uma confissão de um governante autoritário e pouco afeito ao debate livre de uma democracia viva.

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Falácia da Falsa Dicotomia entre Ação e Discussão

O mote do “fazimento” cria uma divisão artificial: de um lado, quem “faz” (o gestor eficiente); do outro, quem “só fala, debate ou teoriza” (a oposição ou a burocracia). A falha é evidente: na administração pública eficiente, o debate, o planejamento, a fiscalização e a discussão política não são o oposto do “fazer” — eles são garantias de que o que está sendo feito é legal, justo e necessário. Reduzir a política ao “fazimento” desvaloriza completamente o processo democrático e a necessária participação social.

Ocultação do “O Quê”, “Para Quem” e “Como” – omissão de variáveis

Dizer que a proposta é o “fazimento” foca a atenção do eleitor no ato de realizar, mas esconde as perguntas mais importantes da política:

– O que está sendo feito?

– Quem realmente se beneficia com essa obra ou ação?

– Qual é o custo de oportunidade (o que deixou de ser feito para que isso acontecesse)? Uma rodovia asfaltada é um “fazimento”, mas se ela beneficia apenas o escoamento de grandes produtores enquanto a agricultura familiar ou a saúde nos bairros periféricos ficam desassistidas, o “fazimento” deixa de ser um mérito absoluto e passa a ser uma escolha política de prioridades no balcão de negócios da administração pública.

Apelo ao argumento falacioso Ad Consequentiam

O argumento sugere que os resultados visíveis (obras de pedra e cal) validam, por si sós, toda a gestão. É a lógica do “o que importa é o resultado”. O abismo entre a intenção e o gesto aponta para uma falha gritante. Na gestão pública, os meios importam tanto quanto os fins. Uma obra entregue rápida e eficientemente (o “fazimento”) pode ter sido realizada sem a devida consulta ambiental, sem ouvir as comunidades afetadas ou concentrando renda. O foco exclusivo no produto tenta blindar o processo de críticas éticas, sociais e legais.

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Venda da ilusão de tecnocracia sem ideologia

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O “fazimento” se vende como um conceito neutro, puramente técnico e sem ideologia. O governante se posiciona como um “tocador de obras”, um empresário ou gerente que apenas resolve problemas. Outro golpe para esconder a realidade política: não existe gestão pública sem ideologia. Escolher investir em infraestrutura logística em vez de investir em programas de transferência de renda ou segurança pública é uma decisão profundamente ideológica. O mote tenta esvaziar o debate livre e democrático, transformando escolhas ideológicas em mera “eficiência técnica”.

O tal “fazimento” de Otaviano funciona como propaganda porque apela ao cansaço legítimo do eleitor com promessas vazias e discursos longos. Porém, como proposta de governo, ele é falacioso porque tenta transformar a política — que é a arte de negociar prioridades para toda a sociedade — em uma mera lista de tarefas de engenharia, onde quem questiona as prioridades é pintado como alguém que “não quer fazer nada”.

*Pedro Pinto de Oliveira é jornalista e professor da UFMT. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP e Doutor em Comunicação pela UFMG.

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