Uma extensa rede de relações societárias envolvendo familiares do ex-secretário de Estado de Fazenda de Mato Grosso, Rogério Luiz Gallo, procuradores do Estado e empresários ligados ao núcleo político do governo Mauro Mendes (União Brasil) tem levantado questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse entre a atuação pública e atividades privadas desenvolvidas paralelamente por agentes com influência na administração estadual.
Levantamento baseado em registros empresariais aponta a existência de pelo menos nove empresas conectadas por sócios em comum, familiares e relações institucionais. O mapa societário coloca no centro da estrutura o ex-secretário de Fazenda Rogério Gallo, sua esposa Lucimara Polisel Gonçalves, o procurador do Estado Hugo Felipe Martins de Lima e outros empresários que aparecem repetidamente em diferentes composições societárias.
O caso ganhou ainda mais relevância diante da ausência de esclarecimentos por parte dos envolvidos. Em 27 de junho de 2025, os jornais Brasil Notícias e Popular MT1 protocolaram uma série de ofícios solicitando explicações sobre as ligações empresariais identificadas no levantamento. Os documentos também foram encaminhados à Controladoria-Geral do Estado (CGE-MT), por meio dos protocolos CGETER202500694 e CGETER202500695.
Apesar do tempo transcorrido desde os primeiros questionamentos, os veículos afirmam não ter recebido qualquer resposta oficial até o momento. O acompanhamento dos protocolos foi realizado junto à Controladoria-Geral do Estado, órgão que à época era comandado por Paulo Farias Nazareth Neto. Entre os nomes citados nos documentos também aparece o procurador do Estado Hugo Felipe Martins de Lima.
O NÚCLEO DA ESTRUTURA EMPRESARIAL
No centro da rede aparece a empresa Guata Estruturação de Projetos e Assessoria Ltda, anteriormente denominada Guata Tecnologia Ltda ME.
Segundo o levantamento, Rogério Gallo integrou o quadro societário da empresa até maio de 2022. Posteriormente, sua participação foi substituída pela de sua esposa, Lucimara Polisel Gonçalves.
Além de Lucimara, a empresa passou a reunir como sócios o procurador do Estado Hugo Felipe Martins de Lima, Eduardo Gomes de Souza, Michell Antonio Breda e, posteriormente, Maryane Coradi Braga Lima.
A partir da Guata Estruturação de Projetos e Assessoria surgem conexões diretas com outras empresas que compartilham sócios ou possuem relações societárias indiretas.
AS EMPRESAS IDENTIFICADAS
O levantamento aponta vínculos entre as seguintes empresas:
- Guata Estruturação de Projetos e Assessoria Ltda;
- CGH Guata SPE Ltda;
- Rio Grande Agropastorial e Florestal Ltda;
- Pilar Administração e Participações Ltda;
- M Breda Engenharia Ltda;
- MB Transporte Rodoviário de Cargas Ltda;
- Frutical Nordeste Agropecuária, Industrial, Importação e Exportação Ltda;
- Maryane Coradi Braga Ltda;
- Valize Engenharia e Assessoria Empresarial Ltda.
Em pelo menos quatro dessas empresas aparece o nome de Lucimara Polisel Gonçalves, esposa de Rogério Gallo.
Outro integrante da família, José Eduardo Polisel Gonçalves, identificado como cunhado do ex-secretário, figura no quadro societário da Pilar Administração e Participações Ltda.
O PROCURADOR DO ESTADO NA REDE EMPRESARIAL
Um dos pontos que mais chamam atenção no levantamento é a presença do procurador do Estado Hugo Felipe Martins de Lima em diversas sociedades empresariais vinculadas ao grupo.
Hugo ganhou notoriedade pública ao ser escolhido pelo governador Mauro Mendes para atuar como interventor na Saúde de Cuiabá durante a intervenção estadual determinada pela Justiça.
Conforme reportagens divulgadas anteriormente pela imprensa mato-grossense, Hugo mantinha participação societária ao lado de Lucimara Polisel Gonçalves em empresas ligadas ao grupo Guata.
As mesmas publicações apontaram que Rogério Gallo permaneceu como sócio da Guata até a divulgação pública das informações, quando deixou formalmente a sociedade. Em seguida, a participação passou para sua esposa.
ENDEREÇO EM COMUM
Outro elemento identificado no levantamento é a utilização de um mesmo endereço por diferentes empresas ligadas à rede.
A Guata Estruturação de Projetos e Assessoria Ltda, a Maryane Coradi Braga Ltda e a Valize Engenharia e Assessoria Empresarial Ltda declararam funcionamento na Sala 111 do edifício SB Tower, localizado no bairro Alvorada, em Cuiabá.
Embora o compartilhamento de endereço comercial não configure irregularidade, o fato é apontado pelos autores do levantamento como mais um indicativo da proximidade existente entre os grupos empresariais.
CONEXÃO COM O NÚCLEO POLÍTICO DO GOVERNO
A análise também aponta ligações indiretas entre a estrutura empresarial e integrantes do núcleo político do governo estadual.
A empresa Valize Engenharia e Assessoria Empresarial Ltda possui participação de Maryane Coradi Braga Lima, esposa de Hugo Felipe Martins de Lima, e de Hélio Palma de Arruda Neto.
Hélio é apontado como genro de Mauro Carvalho, ex-chefe da Casa Civil e uma das figuras mais influentes dos bastidores políticos da gestão Mauro Mendes.
A conexão entre familiares de integrantes do alto escalão estadual e empresas vinculadas ao mesmo círculo empresarial é um dos pontos que motivaram os pedidos de esclarecimento feitos pela imprensa.
GRUPO BREDA APARECE EM DIVERSAS EMPRESAS
Outro núcleo identificado na rede empresarial envolve os empresários Marco Antonio Breda e Michell Antonio Breda.
Os dois aparecem ligados a diferentes empresas do grupo, entre elas:
- CGH Guata SPE Ltda;
- Rio Grande Agropastorial e Florestal Ltda;
- M Breda Engenharia Ltda;
- MB Transporte Rodoviário de Cargas Ltda;
- Frutical Nordeste Agropecuária, Industrial, Importação e Exportação Ltda.
Segundo o levantamento, ambos mantêm participação em pelo menos cinco empresas relacionadas entre si, formando um dos principais eixos empresariais da estrutura.
CONTRATOS E INFLUÊNCIA
As relações empresariais ganharam maior repercussão após a divulgação de informações envolvendo a atuação da esposa de Hugo Felipe Martins de Lima em projetos ligados ao setor de concessões rodoviárias.
Reportagens publicadas anteriormente apontaram que Maryane Coradi Braga Lima participou da estruturação técnica de contratos de concessão da Via Brasil, concessionária responsável por rodovias estaduais que movimentam bilhões de reais em contratos junto ao Governo de Mato Grosso.
As informações divulgadas à época indicavam que os contratos ligados à concessionária ultrapassavam a marca de R$ 6 bilhões em receitas e investimentos previstos ao longo dos períodos de concessão.
UM ANO DE SILÊNCIO
Apesar da relevância pública do tema, os questionamentos encaminhados pelos jornais Brasil Notícias e Popular MT1 permanecem sem resposta.
Os veículos afirmam ter expedido diversos ofícios solicitando posicionamentos dos envolvidos e esclarecimentos sobre as relações empresariais identificadas.
Os pedidos foram direcionados ao então secretário Rogério Gallo, à Controladoria-Geral do Estado e a outros agentes públicos mencionados nos documentos protocolados.
Quase um ano após os primeiros requerimentos, nenhuma resposta oficial havia sido apresentada aos veículos de comunicação até o fechamento desta reportagem.
A ausência de manifestação impede que sejam esclarecidos pontos considerados centrais para a compreensão da estrutura societária, especialmente diante da presença de familiares de agentes públicos, procuradores do Estado e pessoas ligadas ao núcleo político do governo estadual em um mesmo conjunto empresarial.
A reportagem mantém espaço aberto para manifestação de Rogério Gallo, Hugo Felipe Martins de Lima, Lucimara Polisel Gonçalves, demais sócios citados e dos órgãos públicos mencionados nesta matéria.



























