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Jato, nelore e poder: o leilão onde política e negócios se encontram

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Em Brasília, o poder raramente permanece apenas dentro dos palácios. Ele circula. Move-se entre gabinetes, reuniões reservadas, eventos sociais e ambientes de negócios. Às vezes, inclusive, levanta voo.

Na ultima sexta-feira, dia 6, um jato executivo deixou a capital federal rumo a Uberaba, em Minas Gerais. A cidade é conhecida nacionalmente como um dos centros mais prestigiados da pecuária de elite brasileira, especialmente quando o assunto é genética da raça Nelore. Ali, em vez de debates legislativos ou agendas institucionais, o que se negocia são animais de altíssimo valor — e relações que ultrapassam o campo rural.

Leilões de Nelore PO (Puro de Origem) tornaram-se verdadeiros encontros de poder econômico e político. Não se trata apenas de pecuária. Trata-se de patrimônio, prestígio, influência e networking de alto nível.

O evento reuniu criadores tradicionais, investidores do agronegócio e empresários de diferentes setores da economia — alguns deles com contratos milionários com o poder público do Distrito Federal.

No centro desse circuito está o empresário Ronaldo Alves de Souza, organizador do leilão. Sem cargo público, sem mandato político e longe dos discursos oficiais, Ronaldo construiu, nos últimos anos, uma presença significativa nos bastidores do poder brasiliense.

Seu nome passou a circular com frequência nos ambientes administrativos do Distrito Federal durante a gestão do governador Ibaneis Rocha.

No mundo empresarial, Ronaldo atua por meio de companhias como Esfera Construções Metálicas LTDA e RS Transportadora e Construções Civil LTDA, empresas que mantêm contratos com o Governo do Distrito Federal (GDF).

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Nos corredores da política brasiliense, comenta-se sobre a proximidade entre Ronaldo Alves e integrantes do governo distrital. Em Brasília, rumores fazem parte da paisagem política. Alguns exageram. Outros antecipam fatos que mais tarde se tornam públicos.

O que se observa oficialmente é que o empresário ampliou seus negócios de forma consistente durante a atual gestão.

Mas Ronaldo não se limita ao setor da construção e transporte. Nos últimos anos, também se consolidou no agronegócio de alto padrão. Tornou-se criador de Nelore PO e presença frequente em leilões de elite — ambientes onde circulam grandes investidores, pecuaristas tradicionais e empresários com grande poder econômico.

O agronegócio passou a ser, inclusive, um dos principais pontos de encontro do poder brasiliense fora dos gabinetes.

Uberaba, considerada a capital mundial do Zebu, tornou-se palco frequente desses encontros.

O leilão realizado na sexta-feira era aguardado com grande expectativa. Mas o momento político não era o mesmo de meses atrás.

O desgaste que envolve o governo distrital acabou refletindo no ambiente do evento. Alguns nomes tradicionais do circuito preferiram não aparecer. Outros participaram de forma discreta, evitando exposição.

Entre os presentes estavam empresários conhecidos do setor privado que também possuem contratos expressivos com o Governo do Distrito Federal.

Entre eles, Eugênio Lacerda, proprietário da Construtora Artec S.A., e Agenor Neto, dono da Setec Segurança Eletrônica e Telecom Ltda. Ambos com contratos milionários com o poder público distrital.

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Segundo relatos de bastidores, os empresários também chegaram ao evento em aeronave executiva. Durante o leilão, participaram das disputas e acabaram arrematando duas vacas cada um — participação considerada discreta diante do perfil financeiro desses encontros.

O próprio governador Ibaneis Rocha também passou a integrar esse circuito da pecuária de elite.

Há cerca de três meses, segundo informações que circulam no meio rural, ele teria adquirido aproximadamente R$ 30 milhões em gado de genética selecionada em negociação com o empresário Ronaldo Alves.

Brasília sempre conviveu com uma característica peculiar: as fronteiras entre o público e o privado raramente são nítidas. O poder não se constrói apenas nos despachos oficiais ou nas salas de reunião dos ministérios. Ele também se forma nos encontros informais, nos eventos sociais e nos ambientes onde política e negócios passam a compartilhar o mesmo espaço.

Mas o caso não é apenas sobre legalidade. A capital da República sempre funcionou também a partir de relações, proximidades e influências que se constroem fora dos atos oficiais. E, em muitos casos, essas relações acabam tendo peso tão grande quanto decisões institucionais — ou até mesmo quanto votos.

É por isso que episódios como esse não passam despercebidos. Enquanto o circuito social e empresarial segue seu curso, os órgãos de controle acompanham com atenção.

O Ministério Público observa com lupa, o que vão encontrar? São cenas dos próximos capítulos.

 

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