Quem assistiu à Corrida Maluca dificilmente esqueceu Dick Vigarista e a risada sarcástica de seu fiel companheiro, Muttley, quando algum plano começava a fracassar.
O desenho apresentava uma competição automobilística fora dos padrões. Eram onze carros, conduzidos por personagens excêntricos, enfrentando diversos percursos em busca da vitória.
Ao volante do carro número 00 estava Dick Vigarista. Inteligente, inventivo e estrategista, tinha habilidade para criar mecanismos e elaborar planos para as situações mais improváveis.
Mas havia uma característica que definia sua participação na corrida: não queria apenas chegar primeiro. Queria impedir que os outros chegassem.
E aí estava seu grande problema.
Dick Vigarista tinha condições de vencer. Muitas vezes estava à frente e bastava continuar correndo. Mas Dick era Dick. Parava, desviava do percurso, preparava uma armadilha, criava um obstáculo. E, enquanto arquitetava uma forma de fazer os outros perderem, deixava escapar a sua vitória.
Quando crianças, aquilo era apenas diversão. Anos depois, enxergamos a cena de outra maneira.
O personagem desperdiçava inteligência, tempo e criatividade tentando fazer o outro perder, quando poderia utilizar seu talento para vencer.
Décadas depois, essa velha corrida permite uma analogia bastante atual.
Em 2026, o Brasil vive novamente uma grande disputa eleitoral. Eleições não são desenhos animados. As consequências são reais e interferem na vida da população.
Mas a metáfora de Dick Vigarista permite uma pergunta:
quanto da energia utilizada para atacar um adversário poderia ser empregada para mostrar ao eleitor o que o candidato tem a oferecer?
Memes, jingles, vídeos, redes sociais e ferramentas de inteligência artificial oferecem inúmeras possibilidades para apresentar ideias, projetos e propostas.
Esses recursos também podem ser utilizados para ridicularizar adversários, promover ataques ou espalhar informações falsas. O candidato deixa de conduzir sua corrida para tentar controlar a do outro.
No fim das contas, bastava a Dick cruzar a linha de chegada. Na vida real, quem conduz a comunicação de uma campanha pode cair na mesma armadilha: concentrar esforços em atacar o adversário, em vez de mostrar ao eleitor as qualidades, ideias e propostas de seu candidato.
Quando a armadilha vira fake news
As armadilhas de Dick Vigarista eram feitas de buracos, desvios e placas trocadas. Hoje, recursos tecnológicos permitem criar imagens, reproduzir vozes e produzir vídeos com aparência de realidade.
E há uma diferença fundamental:
Nós sabíamos onde estavam as armadilhas de Dick Vigarista. No processo eleitoral, nem sempre sabemos quando existe uma armadilha diante de nós.
Embora a televisão ainda tenha papel relevante na divulgação das candidaturas, as redes sociais ganharam espaço pela velocidade com que as informações circulam e pelo alcance dos conteúdos. Esses ambientes também favorecem a propagação de notícias falsas e a atuação de bots, capazes de simular usuários e ampliar artificialmente determinadas mensagens.
Diante desse cenário, o TSE estabeleceu regras para o uso da inteligência artificial nas campanhas eleitorais, incluindo a identificação de conteúdos gerados ou manipulados por IA, a proibição de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas e obrigações atribuídas aos provedores de internet.
O preço da credibilidade
Há ainda um preço que nenhuma estratégia eleitoral recupera facilmente: a confiança.
Depois de tantas armadilhas, bastava Dick Vigarista aparecer para que o espectador esperasse a próxima trapaça.
Na política, o efeito pode ser semelhante. É possível conquistar votos e vencer uma eleição, mas nenhuma urna entrega credibilidade.
O voto confere o mandato. A confiança precisa ser construída.
E a mentira usada para retirar a credibilidade do adversário pode terminar retirando a credibilidade de quem a utiliza.
A corrida de 2026
As eleições podem ser disputadas com criatividade, tecnologia, bons memes, bons jingles, confronto de ideias e, sobretudo, propostas.
Talvez a velha Corrida Maluca tenha deixado uma reflexão surpreendentemente atual:
quem passa tempo demais tentando convencer o eleitor de que o outro não merece vencer pode esquecer de demonstrar por que ele merece ser eleito.
Dick Vigarista tinha inteligência, criatividade e estratégia.
Muitas vezes, só precisava continuar correndo.
Na corrida eleitoral, não é preciso sabotar o carro dos adversários. É preciso mostrar ao eleitor o seu caminho, as suas propostas e deixar que ele escolha quem deve cruzar a linha de chegada.
A pergunta que fica para a corrida eleitoral de 2026 é: quantos candidatos e marqueteiros perceberão isso a tempo?
ANDRÉA MARIA ZATTAR
Advogada trabalhista e previdenciarista, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica – ABMCJ; articulista e ativista em causas sociais.


























