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GABRIEL NOVIS NEVES

Deus ajuda quem cedo madruga

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Acordo mais cedo do que gostaria.

O corpo desperta antes do relógio.

A casa ainda dorme.

Gosto desse tempo silencioso da madrugada

Envelhecer também é descobrir novos horários dentro do mesmo dia.

Sempre fui madrugador.

De uns tempos para cá o corpo pede cama até quase a hora do almoço.

É como se houvesse uma inversão discreta nos ponteiros internos.

Só fico produtivo no período da tarde, quando desperto de fato.

A cuidadora que sempre trabalhou com idosos me animou.

Disse que eles costumam passar quase toda a parte da manhã na cama.

Parecem recém-nascidos que gostam de trocar o dia pela noite.

Atualmente passo mais da metade do dia com o corpo pedindo cama.

Descobrir novos horários dentro do mesmo dia é uma verdade.

Desde que nascemos, não somos mais os mesmos.

Sofremos mudanças, não só nos nossos horários, mas também nos nossos hábitos e comportamentos.

Tantas coisas que gostava e não gosto ou posso mais!.

Até a paixão pelo futebol está arrefecida, não contando com os noticiários da televisão que não suporto mais, muito pela parcialidade ideológica do seu jornalismo.

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Hoje gostaria de despertar com o dia nascendo, e com mais tempo para gozar.

A culpa debito ao meu aparelho locomotor que dificulta minha saída para longas caminhadas, um exercício de sociabilidade.

Encontro com amigos e velhos conhecidos, sempre com uma conversa na ponta da língua.

Ficava sabendo das notícias da cidade e das estúpidas guerras no Oriente Médio, de Israel e Estados Unidos da América do Norte contra o Irã.

As batalhas são travadas à distância; drones com armas atômicas, misseis atingindo os alvos com precisão milimétrica.

Hoje, a internet do computador do escritório, me passa essas notícias com imagens.

O mundo cabe no laptop — e eu, cada vez mais, entre a cama e a cadeira.

Percebo que o sedentarismo me rouba movimento, mas não me rouba consciência.

O dia começa mais cedo — e talvez isso seja apenas o convite para vivê-lo de outro modo.

Se o corpo desacelera, a alma continua acordando antes do relógio.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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