A Associação Mato-grossense de Cultura (AMC), fundada em 2013, recebeu R$ 17,15 milhões em emendas parlamentares do deputado estadual Elizeu Nascimento (PL) desde 2021. Com capital social declarado de R$ 0,00 e baixa transparência nas contas, a entidade privada passou a figurar no centro de um debate sobre possível conflito de interesses e mau uso de recursos públicos.
Embora registrada para atuar em diversas áreas — como meio ambiente, cultura e esportes —, foi sob o guarda-chuva da “cultura” que a AMC atraiu volumosos repasses estaduais. O crescimento das transferências foi abrupto: de R$ 50 mil em 2021 para R$ 6,2 milhões só nos primeiros cinco meses de 2025. Os valores elevados, somados à natureza privada da associação, despertaram a atenção de órgãos de controle.
O elo direto entre a entidade e o gabinete do parlamentar alimenta as suspeitas. Eliel Tenório Pereira, responsável pela comunicação da AMC, também exerce um cargo comissionado na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, lotado no bloco político liderado por Elizeu Nascimento. A sobreposição de funções levanta questionamentos éticos e jurídicos sobre o uso das emendas.
Em vídeo, o próprio presidente da AMC, Marcos Levi de Barros, apresenta Tenório como assessor de imprensa da entidade. No entanto, diante da repercussão, ambos negaram um vínculo formal. Tenório afirmou ter atuado de maneira informal e esporádica para a associação. Já Levi declarou que o chama apenas como freelancer. Apesar disso, a atuação simultânea em duas frentes interligadas mantém o alerta aceso.
A falta de transparência agrava o cenário. O site da AMC não disponibiliza relatórios financeiros atualizados nem detalha como os milhões em verbas públicas estão sendo aplicados. Essa opacidade contrasta com a responsabilidade de gerir recursos do contribuinte e dificulta qualquer tentativa de fiscalização por parte da sociedade civil.
Do ponto de vista legal, juristas apontam que o caso pode se enquadrar em infrações à Lei de Improbidade Administrativa (Lei 8.429/1992) e ao Código de Ética da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (Lei 8.278/2004). O vínculo entre o assessor do deputado e a entidade beneficiada diretamente por ele pode representar desvio de finalidade e violação aos princípios da impessoalidade e moralidade pública.
Se as investigações confirmarem a prática de direcionamento indevido de recursos, os envolvidos podem ser responsabilizados civil e administrativamente. Entre as possíveis sanções estão o ressarcimento aos cofres públicos, perda do cargo, suspensão dos direitos políticos e aplicação de multas. Por ora, não há decisão judicial, mas a configuração do caso já exige uma apuração rigorosa.
A equipe de reportagem entrou em contato com os envolvidos. Tenório alegou que atua apenas com o deputado e não mantém vínculo com a AMC. Também afirmou que seus horários na Assembleia são flexíveis. Já Marcos Levi reafirmou que Tenório não é funcionário da associação, e que apenas presta serviços pontuais. O espaço segue aberto para esclarecimentos adicionais.



























