O espesso véu que cobre (e encobre) as operações financeiras nos subterrâneos da política e dos negócios em Mato Grosso do Sul talvez ainda demore a ser removido. Talvez. Tudo depende de alguns fatores, entre os quais a força e a autonomia de agentes públicos instalados nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e órgãos de fiscalização e de controle, como o Tribunal de Contas e o Ministério Público – e, claro, as polícias.
Um desses véus está cobrindo milionária operação envolvendo o governo estadual e a Federação das Indústrias (Sistema Fiems), com um enredo que põe o público e o privado na mesma vala de interesses. Para completar o núcleo de protagonismos da história, é fundamental incluir nela a Assembleia Legislativa (Alems). Os pivôs da trama são o ex-titular da Semadesc (Secretaria Estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Jaime Verruck, e o longevo presidente da Fiems, Sérgio Marcolino Longen.
MUITO AMIGOS – No cargo da mais rica entidade classista do Estado faz 16 anos, Longen é muito amigo de Verruck, que inclusive já pertenceu à diretoria da Federação. Não se sabe se por amizade, por imperiosa necessidade da população ou interesse especial do Estado, a Semadesc repassou à Fiems a bagatela de R$ 7 milhões. Um dos detalhes que chamam a atenção para esta parceria é a instigante situação que envolveu Verruck, a autoridade que abriu os cofres estaduais para fazer o repasse.
Nada de mais haveria se aquele chamegão cartorário de Verruck não fosse um dos atos derradeiros em seu derradeiro dia de secretário, já que no dia seguinte estaria de volta à vida civil para cuidar melhor de sua pré-candidatura a deputado federal ou a suplente de senador. Em síntese: o secretártio se despediu da secretaria sacramentando uma transação que rendeu à entidade dirigida pelo amigo R$ 7 milhões.
Tem mais: nem os autores da proeza e nem os cuidadores da coisa pública que poderiam minimamente cobrar explicações plausíveis sobre as “estranhas coincidências” deram um pio. Tudo foi feito como se as coisas estivessem dentro da normalidade, em um Estado que já enfrenta problemas financeiros, atrasando pagamento de fornecedores e cortando despesas supérfluas – o que não é o caso da Fiems.
De acordo com projeções do Sistema Fiems e o Observatório da Indústria, o cash financeiro representado pela indústria de transformação de Mato Grosso do Sul – o principal setor de atuação da Fiems – gira em torno dos R$ 40 bilhões em PIB industrial no acumulado de 2024/2025, com projeção de crescimento contínuo. A instituição influencia mais de 7,9 mil indústrias ativas e cerca de 161 mil empregos formais.
Apesar disso, a Fiems, que é uma associação privada e sem fins lucrativos, organizada e administrada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), atua em parceria com o poder público. Sem ser um órgão governamental, recebe e trabalha com recursos públicos para aplicação no setor, que inclui o chamado “Sistema S”, formado pelo Sesi, Senai e Instituto Evaldo Lodi (IEL). A movimentação de vultosas somas fora da claridade, sem transparência e alheia à prestação de contas, só poderia despertar suspeitas, sobretudo pela ausência de fiscalização.
SEM RESPOSTA – Há denúncias e cobranças vigorosas sobre utilização irregular de recursos públicos captados pelo Sistema Fiems que até hoje continuam sem resposta ou providências dos órgãos pertinentes. A blindagem que protege as armações da Fiems foi levantada em sessão da Alems esta semana, quando o bancada da base governista, conduzida pelo deputado Londres Machado (PSD), orientou o boicote a um requerimento do petista Pedro Kemp. Ele pedia ao governador Eduardo Riedel (PP) e à chefia da Semadesc …





























