Investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo, aliadas a registros de apreensões de drogas e a uma sequência de homicídios, indicam que as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) vêm travando disputas violentas por território no interior paulista e no litoral do estado.
Nesse contexto, o núcleo do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado de Piracicaba, em ação conjunta com a Polícia Militar do Estado de São Paulo, deflagrou nesta quinta-feira (29) a Operação Keravnos. A ofensiva resultou na prisão de ao menos quatro suspeitos e no cumprimento de mandados de prisão contra 26 investigados em municípios como Piracicaba, Rio Claro, Santa Bárbara d’Oeste, Americana, Leme, Engenheiro Coelho, Limeira, Ibiúna e Hortolândia — sendo as capturas registradas nos três últimos.
Segundo o Ministério Público, lideranças investigadas na operação estão diretamente ligadas a uma “violenta disputa territorial” nas regiões de Araras, Piracicaba, Rio Claro e Limeira. As apurações indicam que o conflito se intensificou a partir de 2022, quando o Comando Vermelho passou a tentar ocupar pontos de venda de drogas historicamente controlados pelo PCC, instaurando um cenário descrito pela Promotoria como de “guerra urbana”.
A Operação Keravnos tem como foco principal a apreensão de armas, munições, entorpecentes e dispositivos eletrônicos que possam detalhar a estrutura interna das facções e seus planos de atuação. De acordo com a Polícia Militar, as prisões ocorreram sem confronto. Em entrevista coletiva, o coronel Cleotheos Sabino, comandante do Policiamento do Interior 9 (CPI-9), afirmou que os detidos têm relevância dentro do crime organizado. Um dos alvos presos em Hortolândia, conhecido como “Jet”, é apontado como integrante do PCC e envolvido em crimes de extrema violência registrados recentemente.
Reflexos no Vale do Paraíba e no litoral norte
A disputa entre as facções não se restringe ao interior. Investigações também apontam confrontos no Vale do Paraíba, região de divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro, onde grupos locais de traficantes teriam recebido armamentos do Comando Vermelho, ampliando o nível de violência. Em Rio Claro, por exemplo, uma série de assassinatos registrados no ano passado é associada a essa disputa entre facções rivais.
No litoral norte paulista, autoridades apuram um possível confronto direto entre PCC e CV em Ubatuba. Em 10 de dezembro, dois homens foram mortos após um ataque a tiros contra um veículo no bairro Camburi. A ofensiva estaria relacionada ao avanço do Comando Vermelho na região costeira, especialmente em áreas próximas a Paraty, no estado do Rio de Janeiro, onde a facção fluminense tem ampliado sua presença.
Relatos de investigadores indicam que integrantes do CV passaram a dominar praias, trilhas e estacionamentos, além de tentar impor taxas de acesso em áreas turísticas. A disputa no litoral teria ligação estratégica com o Porto de São Sebastião, considerado um ponto logístico relevante para o tráfico de drogas.
Em janeiro, uma operação conjunta da Polícia Militar e da Polícia Civil prendeu oito suspeitos ligados ao Comando Vermelho em Bananal, município paulista na divisa com o Rio de Janeiro. Um dos detidos portava dezenas de microtubos de cocaína.
Para o promotor Alexandre Castilho, do Gaeco no Vale do Paraíba, a escalada do conflito pode estar relacionada a uma mudança temporária de estratégia do PCC, que teria priorizado o tráfico internacional em detrimento do controle direto das chamadas “biqueiras”. “Esse cenário é muito dinâmico. Houve uma reação diante do plano de expansão do Comando Vermelho, e o PCC parece retomar agora o controle de pontos de venda em algumas localidades”, avaliou.




























