Por Mino Pedrosa
Um contrato entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Fundação Coordenação de Projetos, Pesquisas e Estudos Tecnológicos (Coppetec), entidade sem fins lucrativos, de quase R$ 11,5 milhões, tem levantado suspeitas sobre um possível superfaturamento na compra de kits para a realização de exames antidoping. Segundo fontes, o valor é o maior para esse tipo de contratação e conta, inclusive, com a destinação de emendas parlamentares do deputado federal Eduardo Bandeira de Mello (PSB-RJ), ex-presidente do time do Flamengo.
O acordo, identificado como “Convênio Específico nº 17/2024”, visa o desenvolvimento de um projeto para a “Realização de Análise de Amostras para Controle de Dopagem do Plano de Distribuição de Testes da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) com fornecimento de kits de coletas”.
De acordo com dados do Portal da Transparência da Controladoria Geral da União (CGU), a Coppetec foi contratada pela UFRJ, em maio de 2024, para o fornecimento e realização de exames antidoping, no valor de R$ 11,439.271,28. O contrato tem validade até abril de 2026 e já pagou à entidade R$ 8.419.634,64.
O objetivo do projeto é auxiliar no cumprimento do Plano de Distribuição de Testes da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD). As análises deverão ser realizadas seguindo as normas da Agência Mundial Antidoping (WADA/AMA), contribuindo para a manutenção de um esporte competitivo livre de dopagem no Brasil.
A UFRJ atua como entidade concedente, e a Coppetec, uma fundação de apoio à universidade, é a convenente. Os recursos para o projeto são oriundos do Termo de Execução Descentralizada nº 955752/2024, firmado entre o Ministério do Esporte e a UFRJ.
Pelo contrato assinado, a UFRJ é responsável por transferir os recursos, verificar o processo licitatório e monitorar a execução física e financeira do projeto. Já a Coppetec deve executar e fiscalizar o objeto do convênio, aplicar os recursos exclusivamente nas despesas previstas e manter a documentação contábil atualizada para fiscalização.
Preço
Em buscas pela internet, em laboratórios de renome, um teste antidoping custa entre R$ 110 e R$ 250. Levando em consideração apenas o mais caro, com os quase R$ 11,5 milhões é possível a compra de cerca de 46 mil testes.
O relatório de gestão da ABCD de 2023 menciona ter realizado operações de controle em pelo menos 27 modalidades esportivas. Embora não liste todas as competições específicas, um documento de 2020 indica que as modalidades com mais resultados analíticos adversos foram futebol, ciclismo e fisiculturismo.
Emendas
Pelo acordo firmado entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Cappetec, os recursos não podem ser usados para a contratação ou repasse para funcionários públicos. Também não está prevista a contratação de mão de obra para a aplicação dos exames.
A falta de profissionais foi resolvida com a destinação de recursos do Ministério do Desenvolvimento Social, Família e Combate à Fome, que fez duas transferências de recursos ao Ministério dos Esportes, ambas sem a exigência de licitação ou abertura de pregão.
A primeira, no valor de R$ 112 mil, foi destinada à contratação de pessoa física para atuarem como oficiais de coleta de sangue para atuarem junto à ABCD. A segunda emenda foi de R$ 576 mil, voltado para a contratação de oficiais de controle de dopagem.
Outro nome que aparece na destinação de recursos é do ex-presidente do Flamengo e deputado federal Eduardo Bandeira de Mello. De acordo com o portal da Câmara dos Deputados, ele destinou ao menos uma emenda (43110012), no valor de R$ 280 mil, segundo nota de empenho, para a distribuição de testes de dopagem, diretamente para a UFRJ.
Como funciona o antidoping?
A forma mais comum de se realizar um antidoping é a coleta de urina. Um membro da ABCD pode, antes ou depois de uma competição, fazer a captação de amostras para avaliar se o atleta em questão ingeriu ou não substâncias proibidas.
A coleta também pode ocorrer fora do prazo de competição, por sorteio ou de acordo com o desempenho do atleta — o que não impede que atletas em posições inferiores também sejam testados.
Especialistas afirmam que para cada modalidade há substâncias proibidas diferentes. Dessa forma, o atleta precisa se informar sobre o que é ou não permitido em seu esporte. O competidor precisa, ainda, informar à ABCD sobre o que ele possa ter usado, de forma que o fiscal reporte à autoridade antidopagem.
Caso ele precise usar alguma substância imprescindível para sua saúde, o atleta precisa de uma autorização especial, que deve ser dada pelos órgãos de controle brasileiros.
Perseguição
O médico Filippo Aragão Saviolli, em vídeo no Instagram com mais de 16 mil visualizações, denúncia o uso de testagens para atacar atletas. Ele explica que seus pacientes não são atletas profissionais, mas que praticam esporte por qualidade de vida.
“Eles começaram a treinar pelo mesmo motivo que a maioria: para se tornar mais saudável, cuidar da saúde, do mental, melhor no trabalho, para estar mais inteiro na família. Só que, junto com isso, começa a vir a performance, começam a vir pódio, começam a vir vagas em campeonatos mundiais e tudo mais. O fato, compreensível, e deve ser testado todo mundo, os primeiros colocados e aleatoriamente, outras pessoas, devem ser testadas.”
Embora reconheça a importância do antidoping para garantir um jogo limpo, ele se incomoda com a forma como os testes estão sendo aplicados: alguns atletas são testados repetidamente (muitas vezes dando sempre negativo), enquanto outros nunca são testados. O médico levanta a suspeita de que a frequência excessiva dos testes pode estar sendo motivada por denúncias pessoais ou desavenças entre colegas, em vez de uma suspeita legítima de uso de substâncias, desviando o propósito do sistema.
A crítica se estende às punições desproporcionais e ao tratamento de atletas que já possuem Autorização de Uso Terapêutico (AUT), mas continuam sendo testados exaustivamente. Para o médico, a maior insanidade é a imposição de punições, como proibir um atleta amador de pedalar em um local público, que interferem diretamente na qualidade de vida e na saúde mental da pessoa.
“Doping não é somente para quem está em primeiro lugar, segundo lugar, para quem brigou ali por uma vaga. O (anti)doping também desincentiva utilizar uma substância proibida. Desincentiva outro colega que não está tendo a mesma performance a usar uma substância ergogênica, ilícita”, afirma o médico. “O que me incomoda como médico é ver pessoas que estão frequentemente testadas, repetidamente testadas, e sempre com resultados negativos. Isso não isenta que outros não irão usar, mas vocês entendem que é estranho uma pessoa ser testada quatro, cinco vezes e outras tantas nunca terem sido testadas. Por que essas pessoas estão sendo testadas tantas vezes? De onde estão vindo essas denúncias e por que estão tendo essas denúncias?”
Para Saviolli, há perseguição dentro do esporte e, por tanto, a testagem no Brasil tem perdido sua credibilidade.
“No meu ponto de vista é isso. Não posso provar isso aqui, mas tenho provas que é isso. Mas não posso expor pessoas. Não vou fazer isso, mas é o que está acontecendo. Estão indo atrás de pessoas que têm desavenças com os coleguinhas. Perdeu sentido. O doping está virando uma farra. O antidoping no Brasil está perdendo crédito total”.





























