Durante depoimento à CPI do Consórcio Guaicurus na Câmara Municipal de Campo Grande nesta quarta-feira (7), dois auditores da Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) revelaram que os relatórios que classificam o transporte público da Capital como de “excelente” qualidade são produzidos com base em dados fornecidos pelo próprio consórcio de empresas que opera o serviço — sem qualquer verificação independente.
Os auditores Giuseppe Bitencourt e Luiz Cláudio Pissurno Chaves afirmaram que o último relatório Remid (Relatório de Monitoramento dos Índices de Desempenho), divulgado em novembro de 2024, usou informações repassadas pelo Consórcio Guaicurus por meio do sistema HUB SIG-SIT. A Agetran apenas contratou uma empresa para montar o relatório com base nesses dados e, depois, os próprios servidores assinaram o documento sem validar sua veracidade. Auditorias só são feitas mediante ordem expressa — o que ainda não havia ocorrido até então.
Segundo Bitencourt, a metodologia usada favorece resultados positivos mesmo quando a qualidade do serviço é questionável. “Para que os números deem ruim, todos os ônibus teriam que estar lotados o tempo todo, inclusive nos fins de semana. É muito difícil esse índice não parecer excelente”, explicou. Ele ainda criticou o indicador de acessibilidade, que sempre marca 100% de funcionalidade nos elevadores para cadeirantes, mesmo com inúmeros relatos de falhas.
O relatório mais recente avaliou como “excelente” itens como conforto, acessibilidade, pontualidade, qualidade do serviço e atendimento. A manutenção da frota e cobertura do sistema foram considerados “ótimos”, enquanto eficiência e regularidade das viagens foram apenas “boas”.
O auditor Luiz Cláudio Chaves ressaltou que os técnicos apenas seguem as regras previstas no contrato de concessão firmado em 2012, na gestão do então prefeito Nelsinho Trad (PSD). “O problema não é o nosso trabalho, é o contrato”, resumiu.
As declarações geraram indignação entre os vereadores. A vereadora Luiza Ribeiro (PT) criticou a postura passiva dos servidores: “A sociedade espera providências, não formalidades. Isso pode caracterizar produção de documento falso, e tem consequências graves para servidores públicos.”
O vereador Junior Coringa (MDB) foi ainda mais direto: “Esse setor de auditoria não funciona, não serve para nada. A empresa contratada é paga pelo consórcio, e claro que vai enviar tudo 100% para manter o contrato.”
Já o vereador Maicon Nogueira (PP) afirmou que o modelo de concessão é prejudicial à população. “É um contrato que permite maquiar a qualidade do serviço. Os próprios servidores reconhecem que esse modelo lesa o poder público e, principalmente, os cidadãos.”
Desde o relatório divulgado em novembro, nenhum outro Remid foi publicado. Segundo os auditores, isso ocorre porque a equipe está, pela primeira vez, realizando uma auditoria para avaliar o cumprimento das viagens de ônibus — algo que, até então, não havia sido feito.


























