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Christiane Indaiá

Honrar os pais não é obedecer

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Dia desses, li algo muito interessante a respeito do que aprendemos sobre o que é honrar nossos pais.

Você já refletiu sobre os ensinamentos que recebeu acerca desse tema?

Eu não sei como foi com você ou como esse tema é tratado na criação dos seus filhos, caso os tenha, mas é comum que a obediência esteja diretamente ligada ao ato de honrar nossos pais.

Mas, afinal, o que é obediência e qual definição dela sustentou sua criação?

A palavra vem do latim oboedire, que se divide em ob (inclinação, atenção) e audire (escutar). Portanto, na sua raiz, o conceito significa “escutar com atenção” ou “estar inclinado a ouvir”.

Segundo o Dicionário Aurélio, obediência é o ato ou efeito de obedecer. Define-se, principalmente, como a submissão à vontade de quem manda, o cumprimento de ordens, a sujeição a leis ou regras e a qualidade ou estado de ser obediente.

Em muitas tradições religiosas, ela é entendida como a atitude de fé e entrega aos princípios, dogmas ou desígnios divinos.

Eu, Christiane, entendo que a obediência é, inclusive, um fator de sobrevivência e de liberdade, quando ensinada e vivida com senso crítico.

Se observo as leis, não terei problemas com a Justiça. Se obedeço a certos limites, não coloco minha vida em risco. Se obedeço aos prazos e às condutas no trabalho, o desemprego dificilmente baterá à minha porta, certo?

Mas, quando a obediência é entendida como submissão, qual legado será forjado?

Minha reflexão hoje é sobre ensinar a obediência sem questioná-la. Fazer com que nossos filhos nos atendam em tudo e não tenham autonomia nem poder de decisão.

Ao ensinarmos a obediência cega, criamos correntes difíceis de serem quebradas ao longo da vida. Talvez por isso muitos adultos tenham tanta dificuldade para tomar decisões, principalmente aquelas que vão frustrar os pais.

Todos nós já ouvimos casos de filhos que realizaram o sonho dos pais. Histórias de gente que faz tudo o que lhes é proposto por eles.

Falo da bailarina que queria jogar futebol, do advogado que queria ser padeiro, do médico que queria ser músico, do administrador da empresa da família que queria ser dentista… São tantos exemplos de pessoas insatisfeitas, única e exclusivamente, porque não tiveram coragem de frustrar expectativas que nem eram delas.

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Alguns casos são famosos. Vejam a história de Michael Jackson e seus irmãos. Eles venceram a pobreza e certamente eram gratos por isso, mas a obediência cega era cobrada mesmo depois de adultos.

Em muitas famílias, ensina-se e aprende-se que a medida para ser um bom filho é a paz e a satisfação plena dos pais. Parece respeitoso, bonito e até desejável, mas o alto preço emocional cobrado depois é injusto com eles.

É aí que as crenças e os ensinamentos sobre a obediência cega paralisam a vida das pessoas.

Toda vez que precisam tomar decisões importantes, elas travam. Travam porque não querem decepcionar; travam porque a culpa, esse peso ensinado, decide antes da elaboração racional e lógica de uma decisão consciente.

Nos estudos sobre dinâmica familiar e educação infantil, a obediência é estudada sob a ótica da socialização. Enquanto abordagens antigas tratavam a obediência como submissão ou medo, visões modernas enfatizam que a obediência saudável se constrói por meio do respeito mútuo, da colaboração e da internalização de valores morais pela criança, promovendo sua autonomia, em vez de apenas torná-la passiva.

Os trabalhos de Theodor Adorno, filósofo e sociólogo alemão, sugerem que pessoas com personalidade autoritária costumam ser rígidas, submissas a figuras de poder e preconceituosas contra minorias ou grupos vistos como inferiores.

Ou seja, pais autoritários enxergam seus filhos como pessoas hierarquicamente inferiores.

É importante entender até que ponto cobramos obediência de forma saudável dentro da relação entre pais e filhos e quando cobramos obediência porque não conseguimos lidar com nossas próprias frustrações ao perceber que nossos filhos não são uma extensão nossa.

Compreender que, como pessoas diferentes de nós, eles vão, sim, em algum momento, decidir por algo que não aprovamos e que suas escolhas ensinarão lições importantes para o desenvolvimento deles tira de nós o sofrimento de uma ilusão construída sobre uma crença equivocada e tira deles o peso de uma culpa que não deveria existir.

Quando os filhos aprendem que a satisfação e a felicidade dos pais passam por suas tomadas de decisão, eles carregam dores que não são deles.

Não digo, de forma alguma, que essa cobrança por obediência cega aconteça sempre por maldade. Por vezes, é um ensinamento que não foi repensado nem questionado e que é repassado por gerações.

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Honrar os pais é importante, mas a obediência cega impede voos; impõe o aprisionamento.

Se honrar significasse concordar com tudo, jamais haveria espaço para o amadurecimento, para a individualidade ou para a construção de uma vida própria.

Um filho pode honrar seus pais e, ainda assim, escolher uma profissão diferente, mudar de cidade, criar os filhos de outra forma ou fazer escolhas que eles não fariam.

A honra permanece quando existe respeito; a submissão, por outro lado, exige que alguém deixe de ser quem é para satisfazer a expectativa do outro.

Existem carências e necessidades que nenhuma das partes será capaz de suprir na outra.

Nossos filhos não podem carregar nas costas o peso de uma profissão que o pai ou a mãe sonhava em ter. Eles não têm nenhuma obrigação de realizar o sonho dos outros ou de atender às expectativas construídas na base da submissão.

Nós, os pais, não podemos entender cada escolha dos filhos como afronta, como intenção única de nos provocar. (Sim, eu sei que isso pode acontecer, mas dificilmente será a regra.)

Honrar pai e mãe nunca precisou significar abrir mão da própria identidade, da autonomia ou da responsabilidade sobre as próprias escolhas.

Honrar pode ser reconhecer, respeitar, agradecer e cuidar, sem que isso exija viver para corresponder às expectativas de outra pessoa.

Da mesma forma, amar nossos filhos não significa fazê-los caminhar pelo roteiro que imaginamos para eles, mas oferecer raízes para que se sintam seguros e orientações para que descubram o próprio caminho.

A obediência tem seu lugar quando ensina limites, respeito e responsabilidade; a obediência cega, porém, sufoca o senso crítico, alimenta a culpa e impede que cada indivíduo desenvolva plenamente quem nasceu para ser.

Educar, no fim das contas, é justamente preparar nossos filhos para que, um dia, possam caminhar com liberdade para fazer escolhas diferentes das nossas.

Fontes:

SciELO
Dicionário Aurélio
Verywellmind.com

*Christiane Indaiá é graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura, UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce; Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II);Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam; Certificada Cambridge; Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas.

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