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ROSANA LEITE

Desqualificação das mulheres

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A declaração do conselheiro de Trump, Paolo Zampolli, ao afirmar que mulheres seriam “programadas para arrumar confusão”, chegando ao ponto de qualificá-las como uma “raça maldita”, não se cuida apenas um deslize retórico. É a expressão cruel de uma mentalidade histórica que insiste em sobreviver, mesmo em pleno século XXI.

O que se apresenta como “opinião” individual carrega, na verdade, uma longa tradição de discursos que tentam invalidar as mulheres, reduzindo-as a traços supostamente biológicos ou comportamentais.

A ideia de que mulheres são “programadas” para conflito remete a uma visão determinista, profundamente equivocada, que ignora dimensões sociais, culturais e históricas da experiência humana. É a forma abjeta de deslocar a responsabilidade da violência simbólica ou real, para as próprias vítimas.

A linguagem utilizada por Zampolli é particularmente reveladora. Ao empregar a expressão “raça maldita”, ele não agride somente as mulheres individualmente, mas também as desumaniza coletivamente. A escolha do termo “raça” não é inocente, pois ecoa estruturas de pensamento que historicamente sustentaram hierarquias, exclusões e violências.

Quando aplicada às mulheres, essa lógica reforça a ideia de que o feminino é, por natureza, inferior, instável ou indesejável. Aliás, um estigma que atravessa séculos, do discurso religioso ao científico, do doméstico ao político.

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Não se trata de um caso isolado. Declarações como essa encontram terreno fértil em uma cultura que ainda tolera e, em certos contextos, acaba por legitimar o machismo. O riso condescendente ou o silêncio cúmplice são mecanismos que permitem que tais ideias continuem circulando sem o devido enfrentamento. O problema não está apenas em quem fala, mas também em quem escuta e normaliza.

Além disso, há uma inversão perversa em jogo. Ao acusar mulheres de “arrumar confusão”, ignora-se o fato de que muitas das chamadas “confusões” são, na verdade, reações legítimas a contextos de opressão, violência ou injustiça.

Quando mulheres denunciam assédio, reivindicam direitos ou simplesmente recusam papéis impostos, frequentemente são taxadas de “problemáticas”. O que está em disputa, portanto, não é o comportamento feminino em si, mas a tentativa de silenciar vozes que desafiam estruturas de poder.

É preciso reconhecer o peso simbólico de quem fala. Figuras públicas ou influentes não falam no vazio. Essas palavras circulam, produzem efeitos e legitimam atitudes. Quando um homem em posição de destaque expressa desprezo pelas mulheres, ele contribui para a manutenção de um ambiente em que a misoginia encontra guarida.

E o aspecto ético incontornável? A dignidade humana não admite gradações baseadas em gênero. Ao reduzir mulheres a uma “raça maldita”, rompe-se com um princípio básico de convivência, calcada, inclusive, no reconhecimento do outro como sujeito de igual valor. Esse tipo de discurso corrói o tecido social legitimando a exclusão e o desrespeito.

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A fala de Zampolli revela menos sobre as mulheres e mais sobre a persistência de estruturas mentais que resistem à mudança. O incômodo que o protagonismo feminino gera em certos setores tem se traduzido em tentativas de desqualificação.

Esse homem foi casado por 20 anos com uma ex-modelo brasileira, com quem tem um filho adolescente. A guarda do filho é disputada judicialmente. A ex-mulher o acusa de agressões e abuso sexual.

É visível que existem pessoas que se sentem “autorizadas” a desumanizar mulheres publicamente. Todavia, na atualidade essa retórica longe de intimidar, tem reforçado a urgência em reescrever a história.

O conceito de misoginia precisa ser sempre lembrado. É o ódio, aversão, desprezo ou preconceito profundo direcionado a mulheres. Não se trata de mera antipatia, mas de imensa vontade de inferiorizar, silenciar, humilhar e as punir, por serem mulheres. É a lídima objetificação e discriminação ao feminino.

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT

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