O caso não nasceu ontem, não brotou de conveniência política e muito menos pode ser tratado como surpresa. O deputado distrital João Hermeto, do MDB, mais conhecido por Batoré, pela semelhança com o humorista já falecido, foi formalmente indiciado pela Polícia Civil do Distrito Federal pelo crime de concussão, a forma jurídica de um expediente já conhecido e reiteradamente denunciado na política brasileira, a chamada rachadinha. A covardia do deputado Hermeto em acusar a DECOR, braço da Polícia Civil e responsável pelo combate ao crime organizado, onde agentes trabalham a serviço do Estado, sem interferência política, enquadrando o colarinho branco, não altera o peso das investigações. A investigação da Polícia Civil do DF, que teve início em 2019, atravessou anos reunindo elementos, amadurecendo provas e consolidando um conjunto de indícios que agora receberam o aval do Judiciário, no âmbito do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, instância responsável por autorizar o avanço do caso diante do foro privilegiado do parlamentar.
Hermeto afirmou ao ex-governador Ibaneis Rocha que o indiciamento partiu de fogo amigo, atribuído ao presidente da Câmara Distrital, Wellington Luiz, que também atua como presidente do MDB no Distrito Federal. “Espera, não vá para o confronto agora.” Ao mesmo tempo, Hermeto mandou para Ibaneis o vídeo em que ataca o delegado da DECOR, chamando-o de “covarde: você quer me tirar da eleição, mas você vai ver o que vou fazer. Vou provar minha inocência na Justiça, seu covarde”. Esbravejou o Batoré Hermeto.
O que está descrito nos autos não é sofisticado, mas é grave. Servidores comissionados, ocupantes de cargos de confiança, eram, segundo a apuração, obrigados a devolver parte dos salários sob a ameaça direta de exoneração ou rebaixamento. Um mecanismo de coerção que transforma a estrutura pública em instrumento de arrecadação privada e corrói a finalidade do serviço público. O dinheiro que circula nesse sistema não é abstrato, não é teórico, não é político. É dinheiro do contribuinte, desviado, segundo as investigações, no interior do próprio gabinete.
O inquérito não parou no parlamentar. Foram também indiciados o chefe de gabinete, Licérgio Oliveira de Souza, e a esposa do deputado, Keilla Alves de Almeida, compondo um núcleo que, para os investigadores, operava a engrenagem do esquema. Um relatório do Coaf adiciona densidade ao cenário ao apontar movimentações financeiras de aproximadamente R$ 1,6 milhão, consideradas incompatíveis com a renda do principal operador do gabinete entre 2018 e 2023. Não se trata de suposição isolada, mas de um conjunto de dados que se conecta e reforça a linha investigativa.
Apesar desse acúmulo, a reação de Hermeto não foi a de quem enfrenta o mérito das acusações, mas a de quem tenta deslocar o campo de batalha. Em declarações públicas, atribuiu o caso a uma denúncia da ex-mulher, questionou o tempo da investigação e insinuou irregularidades na atuação da polícia. Foi além. Nos bastidores, buscou apoio político, telefonou ao ex-governador Ibaneis Rocha e passou a sustentar a tese de que o processo teria sido alimentado por fogo amigo. O alvo escolhido foi o presidente da Câmara Legislativa e do MDB local, Wellington Luiz, a quem atribui, sem apresentar elementos públicos concretos, a suposta digital política por trás da investigação.
A narrativa é conveniente, mas colide frontalmente com a natureza do processo. Um inquérito que se inicia em 2019, que atravessa anos sob análise, que acumula provas técnicas, que envolve relatórios financeiros e que depende de autorização judicial para avançar não se sustenta por vontade isolada nem por disputa interna de partido. Sustenta-se por materialidade, por consistência e pelo crivo de instituições que operam sob controle legal.
O ponto central, que o discurso político tenta obscurecer, permanece intacto. Há um indiciamento formal por concussão, há a descrição de um mecanismo de exigência de vantagem indevida e há indícios que levaram a polícia a concluir pela prática do crime. A Justiça, ao autorizar o prosseguimento, não endossou narrativa, mas reconheceu a existência de elementos suficientes para que o caso avance.
Hermeto afirma que não deve nada e que irá se defender. É um direito inquestionável. Mas a tentativa de reduzir uma investigação estruturada a perseguição pessoal ou a intriga partidária não enfrenta o que realmente importa. Quando o dinheiro público entra na equação e quando o poder do cargo é colocado sob suspeita de uso indevido, não há espaço para atalhos retóricos. Há fatos, há autos e há um processo que, ao contrário do discurso, não se sustenta em versões, mas em provas.
Após a manifestação do Hermeto, o ex deputado Luiz Miranda destacou em suas redes socias um fato:





























