O delegado Nilton Farias, da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), afirmou nesta terça-feira (28), durante depoimento no Tribunal do Júri de Cuiabá, que os elementos encontrados no local do assassinato do advogado Roberto Zampieri afastaram a hipótese de latrocínio e reforçaram a suspeita de uma execução planejada.
Após o crime, a polícia encontrou com a vítima mais de R$ 13 mil em dinheiro e o aparelho celular. Segundo o delegado, a permanência desses objetos indicava que o objetivo dos criminosos não era roubar o advogado.
Zampieri foi morto com 12 disparos. Nilton relatou que os envolvidos teriam levado uma caixa para recolher os estojos das munições e dificultar a identificação da arma por meio de perícia balística.
Alguns cartuchos, porém, caíram no chão durante a ação. Para o investigador, isso pode ter ocorrido em razão do nervosismo do autor dos tiros.
Na época, os suspeitos também utilizavam máscaras, comportamento ainda comum após a pandemia de Covid-19, o que dificultou a identificação visual.
Durante o julgamento, o Ministério Público exibiu imagens do veículo de Zampieri, do dinheiro localizado e do ponto onde o advogado foi assassinado. No telefone da vítima, os policiais encontraram ainda uma notificação de mensagem enviada por um desembargador.
“Como ele era advogado, não achei estranho”, afirmou Nilton, sem revelar a identidade do magistrado.
No dia do homicídio, o delegado conversou com o irmão de Zampieri, que relatou a aproximação de uma pessoa que teria vendido uma fazenda no Texas, nos Estados Unidos, e possuía dinheiro para realizar uma negociação imobiliária.
A informação foi inicialmente considerada improvável. Com o avanço das investigações, porém, o nome de Antônio Gomes da Silva surgiu vinculado ao caso.
Planejamento do assassinato
Conforme o depoimento, Antônio esteve mais de uma vez no escritório de Zampieri antes do crime. Ele teria afirmado que um sobrinho pretendia adquirir propriedades rurais e dispunha de mais de R$ 200 milhões para os negócios.
Durante os encontros, Antônio teria usado boina, bengala e máscara para tentar dificultar sua identificação, embora tenha se apresentado com o próprio nome.
Uma das aproximações envolveu uma visita a uma fazenda acompanhada por um amigo do advogado. A investigação suspeita que a intenção era levar Zampieri a uma área sem câmeras de segurança, onde poderia ser morto. A vítima não compareceu ao local.
Nilton também declarou que os investigados utilizavam codinomes relacionados à construção civil. Hedilerson Fialho Martins Barbosa teria permanecido nas proximidades da cena do crime para prestar apoio à ação.
Antônio confessou participação no homicídio e apontou Hedilerson como responsável por apresentá-lo ao coronel reformado do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas.
Segundo a apuração, a negociação foi inicialmente apresentada como um serviço ligado a uma obra, mas depois teria evoluído para a contratação da morte do advogado.
Hedilerson confirmou que viajou de Minas Gerais para Cuiabá. Como era atirador esportivo, teria registrado junto à Polícia Federal o despacho da arma transportada.
A quebra do sigilo telefônico revelou uma sequência de contatos entre os investigados. No dia do assassinato, Caçadini teria ligado para o fazendeiro Aníbal Manoel Laurindo.
Os policiais também localizaram uma pesquisa feita em outubro de 2023 sobre o endereço do escritório de Zampieri, além de fotografias do advogado morto e cópias de partes de um processo civil envolvendo a vítima e Aníbal.
Suposto grupo de pistolagem
Durante o júri, o promotor Vinícius Gahyva Martins mencionou a possível atuação de Caçadini no chamado Comando C4, sigla atribuída a “Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos”.
Segundo a acusação, o grupo mantinha uma tabela de valores para serviços de vigilância e assassinato de autoridades. Os pagamentos poderiam chegar a R$ 250 mil.
Nilton afirmou acreditar que a estrutura investigada apresentava características de um grupo de pistolagem utilizado para a execução de crimes.
Respondem ao processo Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas.
Conforme a denúncia do Ministério Público Estadual, Antônio teria realizado os disparos, Hedilerson intermediado a contratação e fornecido a arma, enquanto Caçadini é apontado como financiador do homicídio.
Os três foram denunciados por homicídio qualificado por promessa de recompensa, emprego de recurso que dificultou a defesa da vítima, uso de arma de fogo de uso restrito e concurso de pessoas.




























