O papa Leão XIV fez nesta segunda-feira (25) um pedido histórico de perdão pelo papel da Igreja Católica na legitimação da escravidão e pela demora de séculos em condenar formalmente a prática. Em sua primeira encíclica, intitulada “Magnifica Humanitas”, o pontífice classificou esse legado como uma “ferida na memória cristã”, marcando uma das manifestações mais diretas já feitas por um líder da Santa Sé sobre o tema.
No documento, o papa reconhece que decisões e posicionamentos adotados por pontífices ao longo da era moderna contribuíram, em determinados contextos históricos, para a autorização de formas de subjugação de povos considerados “não cristãos”. Ele cita que bulas papais do século XV chegaram a conceder respaldo político e religioso a monarquias europeias para a conquista de territórios e a escravização de populações.
Leão XIV afirma que, embora não seja possível julgar o passado apenas pelos parâmetros atuais, isso não diminui a gravidade da demora histórica da Igreja em condenar a escravidão de forma inequívoca. Em um dos trechos mais fortes da encíclica, o pontífice declara: “Isso constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar desvinculados”, ao pedir perdão em nome da instituição.
O texto também conecta o debate histórico à atualidade, ao relacionar antigas formas de exploração com novas dinâmicas de desigualdade no mundo contemporâneo, especialmente ligadas à economia digital e ao uso de tecnologias emergentes, como a inteligência artificial. Para o papa, a Igreja deve assumir postura firme diante de qualquer forma moderna de exploração humana.
O gesto repercute décadas de cobranças de grupos católicos, pesquisadores e ativistas, especialmente nos Estados Unidos e na África, que exigiam um reconhecimento mais explícito do papel institucional da Igreja no processo colonial e no tráfico transatlântico de escravizados. Apesar de papas anteriores já terem feito pedidos de desculpas relacionados ao envolvimento de cristãos na escravidão, nenhum havia avançado em um reconhecimento tão direto da responsabilidade histórica da Santa Sé.
Na encíclica, Leão XIV também recorda que a condenação explícita da escravidão só ganhou força no final do século XIX, durante o pontificado de Leão XIII, quando boa parte do mundo já havia iniciado processos formais de abolição. Ele defende que o reconhecimento desse atraso é fundamental para evitar a repetição de erros históricos e reforçar o compromisso da Igreja com a dignidade humana.
Fonte G1



























