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CONTRADIÇÃO

Deputados bancam shows enquanto saúde sofre com falta de insumos em Rondônia

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A destinação de emendas parlamentares para custear shows de cantores, duplas sertanejas e bandas de forró em Rondônia voltou a expor uma contradição na aplicação do dinheiro público: enquanto festas recebem recursos para atrações nacionais, a rede estadual de saúde enfrenta falta de anestesistas, medicamentos, equipamentos e insumos básicos.

O caso mais recente envolve a 14ª edição da Expobim, em Cujubim, realizada entre os dias 11 e 14 de junho. Um dos destaques da programação foi o show nacional da dupla sertaneja Jads & Jadson, realizado na sexta-feira, 12, com grande presença de público no parque de exposições.

O evento contou com recursos de emenda parlamentar destinados pelo deputado estadual Pedro Fernandes (PRD) e por outros parlamentares. A justificativa apresentada é a de incentivo à cultura, ao entretenimento, ao agronegócio, ao comércio local e às tradições dos municípios rondonienses.

A discussão, no entanto, não está na existência dos eventos nem na realização de shows populares. O ponto central é a prioridade dada ao gasto público em um momento em que hospitais estaduais enfrentam problemas graves e recorrentes.

Em Guajará-Mirim, a contratação de atrações como Juliana Bonde, Bonde do Forró, Bonde do Arrocha e DJ Maluco, para o aniversário do município, também provocou repercussão. O custo informado foi de R$ 450 mil, com pagamento por meio de recursos públicos e emenda parlamentar.

Enquanto isso, no Hospital Regional de Cacoal, a falta de anestesistas compromete cirurgias e atendimentos. A ausência desses profissionais afeta diretamente pacientes que aguardam procedimentos, amplia filas e pressiona ainda mais a estrutura hospitalar.

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A crise não se limita a Cacoal. O Tribunal de Contas de Rondônia apontou falta de materiais, medicamentos, equipamentos e dispositivos médico-hospitalares essenciais em unidades da rede estadual. Segundo o órgão de controle, a insuficiência desses itens pode comprometer a segurança dos pacientes e a continuidade da assistência.

Os chamados insumos incluem itens básicos usados diariamente em hospitais, como seringas, agulhas, luvas, gazes, ataduras, sondas, cateteres, equipos de soro, fios cirúrgicos, materiais de esterilização, medicamentos, anestésicos, soluções intravenosas, máscaras, aventais, curativos, tubos, coletores e outros materiais indispensáveis para urgências, cirurgias, UTIs, centros obstétricos e unidades neonatais.

A falta desses produtos obriga profissionais de saúde a trabalhar sob risco, improvisar rotinas e administrar atendimentos em condições abaixo do necessário. Em setores críticos, como centros cirúrgicos, UTIs, maternidades e emergências, a ausência de um item simples pode atrasar procedimentos, suspender cirurgias ou colocar pacientes em situação de vulnerabilidade.

Nesse cenário, a aplicação de milhões de reais em emendas parlamentares para shows e festas públicas revela uma escolha política. O dinheiro que financia atrações artísticas poderia ser usado, por decisão dos próprios parlamentares, para reforçar hospitais, comprar medicamentos, garantir insumos, contratar serviços especializados ou reduzir gargalos da saúde estadual.

Eventos culturais movimentam a economia local, atraem público, fortalecem o comércio e preservam tradições regionais. Esse argumento é usado por deputados e prefeitos para justificar a destinação de emendas. Mas a comparação com a realidade dos hospitais impõe uma pergunta objetiva: qual despesa deve vir primeiro quando falta o básico para atender pacientes?

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Em Rondônia, a população que depende do SUS convive com demora em consultas, cirurgias represadas, falta de profissionais especializados e desabastecimento de materiais. Ao mesmo tempo, emendas parlamentares seguem bancando cachês artísticos, estruturas de palco, som, iluminação, transporte, hospedagem e contratação de bandas.

A situação mostra que o problema não é a festa, nem o artista contratado, nem o direito da população ao lazer. O problema é a ordem de prioridade adotada por quem decide onde aplicar recursos públicos.

Quando o Tribunal de Contas precisa determinar medidas urgentes para garantir insumos básicos na saúde, a destinação de emendas para shows milionários deixa de ser apenas uma pauta cultural e passa a ser uma questão de responsabilidade na gestão do dinheiro público.

A saúde pública exige planejamento, abastecimento contínuo e prioridade orçamentária. Sem anestesistas, sem medicamentos e sem materiais básicos, hospitais deixam de cumprir plenamente sua função. Já uma festa, por mais tradicional que seja, pode ser planejada sem comprometer recursos que fazem falta no atendimento direto à população.

Emendas parlamentares são instrumentos legítimos de investimento público. Mas, em um estado onde a rede hospitalar opera sob pressão, a escolha entre palco e centro cirúrgico revela mais do que uma decisão administrativa. Revela a escala de prioridades de quem controla parte do orçamento.

 

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