Poucos partidos terão mais de 60 deputados em 2018, diz Moreira Franco

Imagem da Agência Brasil Central de Conteúdo.

Oscilando entre o semblante grave, típico de quem está tensionado, e um largo sorriso, característica de quem é bem humorado, um dos mais importantes auxiliares de Michel Temer, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco, afirma que o presidente é vítima de uma “perseguição tenaz”. Mas que, mesmo diante dos ataques, terá votos na Câmara para derrubar a segunda denúncia contra ele. Falando de sua sala no Palácio do Planalto, afirma que o governo está separando suas responsabilidades administrativas da “campanha de difamação”. Otimista quanto ao futuro da economia, diz que o “transatlântico está começando a zarpar” e cita os leilões da Cemig e da área de Óleo e Gás. Pessimista diante da realidade do Congresso, prevê que poucos partidos sairão das eleições de 2018 com uma bancada de 60 deputados e que o próximo governo, diante dessa fragilidade, terá que fazer negociações individuais para ter maioria.

 

O governo parou com a primeira denúncia contra o presidente Temer. Vai parar de novo agora, com a segunda?

Há um jogo político, uma perseguição tenaz ao presidente Temer, uma perseguição que tem objetivos políticos. Há a montagem de uma narrativa que visa atacá-lo, acuá-lo do ponto de vista moral. O programa econômico e social que o governo desenvolve, e vem dando resultado, não é objetivo de debate. O debate se faz sobre denúncias feitas com base em gravações ilegais, falso testemunho de pessoas sem credibilidade, de documentos falsos e outras modalidades de ilicitudes.

 

Mesmo diante dessa fragilidade, o Supremo enviou a denúncia para a Câmara…

Nós, do PMDB, acreditamos na Justiça. Construímos esse arcabouço jurídico na Constituinte, mas ele não pode ser desvirtuado para agredir o direito das pessoas. A segunda denúncia vai ser derrubada porque é da tradição do Congresso a insurgência quando os direitos fundamentais dos indivíduos e da democracia são agredidos.

 

Na primeira denúncia já se questionava a sua consistência, mas a base do governo se dividiu, o PSDB se dividiu. Qual a expectativa?

Não cuido dessa área. Quem cuida é exatamente um ministro do PSDB, Antonio Imbassahy. Nós vamos ter o número de votos suficientes para derrubar a denuncia. Cada um age com sua consciência. O PSDB está fazendo as avaliações dele, da atitude que tomou, de sua coerência e também do ponto de vista eleitoral.

 

O presidente queria ser o presidente das reformas. A da Previdência está parada. Ela ainda será aprovada?

Em pouco mais de um ano, muitas reformas foram feitas na economia e na gestão. Fizemos a reforma trabalhista e instituímos o Teto dos Gastos. O Congresso foi fortalecido, as decisões tomadas ali não poderão mais ser manipuladas pelo Poder Executivo. O teto é um avanço na Lei de Responsabilidade Fiscal. A este conjunto vai se somar a reforma da Previdência. Não tenho dúvidas que o Congresso tem consciência de que ela é fundamental para garantir a compatibilidade entre a realidade financeira e um mundo novo.

 

O governo apresentou um programa de privatização. Há expectativa de arrecadar R$ 90 bilhões. Quando esse programa vai deslanchar?

A primeira iniciativa foi assinar a MP que instituiu um programa de parceria de investimentos. Não será público-privado porque o presidente recebeu o poder público destruído, sem capacidade de investimento. Um desequilíbrio fiscal brutal, a economia em pedaços e uma recessão da qual só agora estamos conseguindo sair. O único caminho para sair dessa crise é crescer, investir e gerar empregos para ter renda.

Mas as coisas estão andando?

Creio que não é exagero afirmar que o transatlântico está começando a zarpar. Colocamos o trem no trilho, os empregos estão começando a surgir, as pessoas estão comprando mais, as exportações reagem positivamente, estamos importando mais, aumentando a safra agrícola. Em três reuniões do Conselho da PPI, no que se refere às concessões, colocamos 84 ativos e 70% foram concedidos à iniciativa privada e já estão operando — gerando emprego e reduzindo as tarifas. Fizemos os leilões da Cemig e de Óleo e Gás no Rio de Janeiro.

 

Qual a avaliação destes leilões?

Mostram a força e a confiança dos investidores no caminho que a economia brasileira está trilhando. A recuperação é evidente. Chegam a perguntar se houve um descolamento da economia com a crise política. Não há descolamento. O que existe é uma estratégia clara do presidente Temer de separar as nossas responsabilidades administrativas da campanha de difamação contra o presidente.

 

O senhor cita vários fatos positivos na economia, mas quando a população vai começar a perceber isso?

A crise é muito profunda. Há áreas da economia que já percebem isso. Há Estados gerando empregos e há outros, como o Rio de Janeiro, que continuam perdendo empregos. Somos uma sociedade muito grande e com muito desequilíbrio da atividade econômica, a percepção generalizada se dá passo a passo. A recuperação da esperança é muito mais lenta. Houve uma grande incorporação de brasileiros ao processo de consumo e estas pessoas foram as que perderam mais rapidamente. Milhões de mulheres, negros e jovens tiveram ascensão no período anterior. Acreditamos que perseverando nesse caminho vamos garantir que o povo voltará a ter esperança.

O governo extinguiu a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca) para ampliar os investimentos econômicos. E voltou atrás. Onde foi que o governo errou?

Faltou debate e compreensão. A área esta toda ela sendo explorada de maneira irregular. Há dezenas de pistas de pouso, com várias minerações irregulares e usando de forma inadequada produtos que agridem o meio ambiente. O Ministério de Minas e Energia queria sanear isso. Mas no regime democrático é preciso ter a humildade de conversar com as pessoas, discutir e saber que quando não se falou o suficiente, é preciso dar um passo atrás para dar dois à frente.

 

O país foi sacudido pelo general Mourão, que fez alusão a uma intervenção militar. Por que o presidente não deu muita importância. Por que o silêncio?

O Brasil está vivendo um clima de muita intolerância em qualquer área. Você pega as acusações contra o presidente Temer: elas trazem o ranço da intolerância, do ódio, da mesquinharia. Hoje há a maior dificuldade de se conviver com o contraditório. Quando alguém não concorda, ela é execrada, estigmatizada. Essa declaração não teve o tamanho que justificasse uma palavra do presidente. Isso daria dimensão a um problema que nós já superamos. Nós temos que ser tolerantes, ter cautela, ter generosidade, o respeito à opinião alheia é fundamental. Não tem que ir imediatamente para o confronto. Só quando isso se justificar. Não adiantaria criar um ambiente de demagogia, tensão, exacerbação.

 

Há uma descrença nas instituições?

Não acho que exista descrença. Há quantos anos nós fazendo um debate na sociedade brasileira sobre práticas de governança, valores e moralidade? Começamos no mensalão. Foram vários governos, final do primeiro mandato do Lula, segundo mandato do Lula, governo da Dilma e agora. As instituições estão de pé. O Poder Judiciário está cumprindo suas funções. O Poder Executivo está cumprindo suas funções. O Poder Legislativo, em que pese as dificuldades, mesmo assim está funcionando, votando. Estamos tirando o Brasil dos meados do século 20 para o século 21. Hoje não existe mais o formador de opinião. Hoje as pessoas querem formar opinião e usam a tecnologia na Internet para expor suas opiniões. É preciso fortalecer as instituições e combater os excessos.

E o convite do presidente Temer para que o prefeito João Doria se filie ao PMDB para concorrer à Presidência?

Nenhum candidato do PMDB é tirado do bolso do colete. O doutor Ulysses, a maior liderança do partido, foi a uma convenção disputar com cinco outras pessoas. Isto é folclore. O PMDB foi criado de baixo para cima, talvez por isso nunca tivemos sucesso em eleições para a Presidência da República. Na cultura do partido, os comandos municipais e estaduais são muito fortes. Nunca fizemos acordo nacional à revelia dessa realidade local.

 

Mesmo esses acordos nacionais não são sempre seguidos por todos?

Essa é a cultura do partido. O PMDB é o que a história lhe fez. Não quero ser grosseiro. Eu convidaria o Doria para vir para o PMDB. Mas ele é suficientemente inteligente e maduro para saber que convites dessa natureza não significam muita coisa. Estou falando do nosso partido. Quando você tem um partido no qual você manda, você pode dizer: venha, que você vai ser meu candidato a presidente da República. Aqui ninguém manda. Nós nunca nos organizamos para práticas ilícitas.

O partido terá condições de fazer maioria em 2018, para comandar o Senado e a Câmara para levar adiante seu projeto de poder?

Sempre fomos o partido majoritário. Na Constituinte era acachapante. A crise política parlamentar é muito complexa. O arcabouço constitucional apodreceu. Para governar, o presidente Sarney se valeu do Centrão. O PMDB era forte, mas muito dividido. O jeito foi criar um aglomerado, o Centrão. O presidente Fernando Henrique governou com o que ele chamou de Presidencialismo de Coalizão, com três partidos sólidos – o PMDB, o PFL e o PSDB. O governo saía com uma tropa poderosa, de 250 deputados, para formar maioria. O governo Lula não conseguiu fazer essa montagem e acabou no mensalão.

 

E agora com o presidente Temer?

Do jeito que as coisas estão indo, creio que poucos partidos terão mais de 60 deputados em 2018. Aí, para formar maioria, vamos ter que criar um presidencialismo não sei lá do que? Vai ser individual, vai ter que conversar um por um. Mas antes desse negócio explodir, acredito que alguma solução virá.

A entrevista é conteúdo exclusivo da revista ISTOÉ

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