Polícia investiga agressões a LGBTs em show no Rio

Imagem da Agência Brasil

A Polícia Civil do Rio pediu ao Clube Monte Líbano as imagens internas e externas do local feitas na madrugada de sábado após um grupo de transexuais, travestis e homossexuais ter denunciado agressões por seguranças durante uma festa no clube. A polícia também solicitou a lista de presentes na festa chamada A Maior do Baile, organizada pela Rio Universitário para alunos do curso de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O grupo, formado por integrantes da Casa Nem – espaço de acolhimento da população LGBT, disse que foi convidado pela produção do evento para fazer uma participação no palco durante o show da drag queen Pabllo Vittar. Ao tentar subir no palco, o grupo disse que foi impedido e agredido por seguranças.

Uma das pessoas que relatou ter sido agredida foi o consultor ambiental Jobson Camargo, de 27 anos. Ele contou que recebeu socos e chutes, foi imobilizado no pescoço por um dos seguranças e arrastado pela escada até a parte externa do clube. Lá, estavam Rhariane Maia, Lucas Pinheiro, Luciana Vasconcellos e Indianara Siqueira, que também afirmaram ter sofrido agressões físicas.

O consultor registrou o boletim na 14ª DP, próxima ao clube. Logo depois, ele foi levado ao Hospital Miguel Couto, também na zona sul. Ontem (4), Luciana Vasconcellos e Indiara Siqueira foram encaminhadas pela Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS Rio) da prefeitura para atendimento.

A 14ª DP informou que os registros foram feitos como lesão corporal.

Após o episódio, Jobson disse está abalado psicologicamente, com ansiedade e dificuldade para comer. “Se fosse com pessoas que estão no padrão da sociedade, pessoas CIS, héteros, brancas, padrão zona sul, isso não teria acontecido, mas como são pessoas em vulnerabilidade, os LGBTs fica muito mais fácil agredir quem está em minoria”, disse à Agência Brasil.

Segurança

A Alfa Seg, empresa contratada pelos organizadores para fazer a segurança da festa, informou que está colaborando com as investigações da polícia. Seguranças já prestaram depoimento e três fizeram exames de corpo de delito. O diretor do setor operacional da empresa, Luciano Martins, confirmou que dois convidados do evento tentaram subir no palco. Ele negou, no entanto, que tenham sido retirados de lá por seguranças, o que segundo, o diretor foi feito por integrantes da produção. Os seguranças levaram o grupo para fora do clube.

Luciano Martins acrescentou que a Alfa Seg fez, em outras ocasiões, segurança no Monte Líbano e em eventos da comunidade LGBT, como a Parada Gay do Rio. “A gente tem conhecimento e uma tratativa com o público LGBT. A Parada LGBT a gente já fez quatro vezes. Então, nós jamais trataríamos uma pessoa de maneira diferente em função da opção sexual dela, da cor, da raça, da crença”, completou.

Clube

O gerente-geral do Monte Líbano, Vivaldi Campos, disse que o monitoramento da segurança foi feito pelas câmeras do sistema do clube e também pela empresa contratada pelos organizadores da festa. “Nós temos o nosso monitoramento, mas a empresa que faz o evento contrata também que é para ter uma gama maior de visão do que ocorre no evento. Tanto o nosso monitoramento como da empresa contratada foi feito”.

Campos informou que o clube apenas aluga o espaço e toda a infraestrutura fica a cargo da produção do evento, inclusive a contratação de seguranças que precisa ter certificado de registro na Polícia Federal. Destacou que o Monte Líbano cobra o cumprimento das regras e da legislação de quem contrata o espaço. “Para se tirar a autorização todos os órgãos têm que autorizar, que são o Corpo de Bombeiros, o 23º BPM, a delegacia de polícia, a Seop [Secretaria de Ordem Pública]. Eles liberam o evento a partir do momento em que a produção apresenta a documentação necessária para que o evento seja realizado e isso foi feito”, garantiu.

A assessoria de imprensa de Pabllo Vittar disse em resposta à Agência Brasil que a drag queen “não tem equipe de segurança e não acompanhou os fatos relatados”. Informou ainda que  “está buscando por respostas junto à organização do evento e não compactua com atitudes LGBTfóbicas ou qualquer tipo de violência”.

Reparação

Ontem (4), Indianara Siqueira, que é vereadora suplente do PSOL , e Jobson Camargo se reuniram com o coordenador Especial da Diversidade Sexual (CEDS Rio) da prefeitura, Nélio Georgini e com o coordenador do Programa Rio Sem Homofobia, do governo do estado, Fabiano Abreu. O encontro foi para tratar do pedido de reparação dos agredidos.

“Nada, nada vai reparar o que nós passamos. Isso tem que ficar bastante claro. A violência foi bastante grande e por bastante tempo. Sinto isso em meu corpo. Nós queremos uma retratação do clube, certo que em parceria com o Rio Universitário, mas alguém tem que ser responsabilizado. Vamos sim procurar os nossos direitos na área civil e criminal”, disse Jobson.

Para Indianara Siqueira, o caso é semelhante aos assassinatos de travestis e transexuais no país. “É a mesma violência da que me jogou de um ônibus na zona oeste e as pessoas ao redor não fazem nada porque foram ensinadas que nossos corpos são errados e temos que passar por uma punição de qualquer jeito”, disse. “A gente pensou que seriam pessoas capacitadas e que sabiam lidar com o público. E não. Era um bando de homens violentos se dizendo seguranças, nos arrastando, batendo e agredindo”, acrescentou.

A advogada Maria Eduarda Aguiar, que representa o grupo, disse que irá pedir reparação moral e material das agressões sofridas. Na visão da advogada, houve um excesso dos seguranças que entendem que as pessoas trans deveriam ser agredidas. A advogada, a primeira a receber a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil com o nome social, defendeu a aprovação de uma legislação específica para este tipo de crime.

“Foi uma agressão desmedida. A gente carece de uma lei para em caso de agressão ter um agravante para o crime, mas existe um conservadorismo, inclusive do Congresso, e as propostas de leis acabam sendo arquivadas”, apontou.

Prefeitura

O coordenador Nélio Geogini marcou para a próxima segunda-feira (10) uma nova reunião com o grupo para encaminhar as ações que serão tomadas durante o processo penal. “O mais importante é entender que nada do que é, foi ou será dito vai apagar a violência dessas pessoas. Nós, como estado e máquina estatal, nunca poderemos entender que a violência é resposta para o que quer que seja”, disse.

Fabiano Abreu informou que o Rio Sem Homofobia vai encaminhar um pedido de esclarecimento sobre a atuação de policiais militares durante atendimento a Jobson Camargo. O consultor disse que ligou para o 190 e que os policiais não prestaram atendimento adequado do lado de fora do clube e não registraram o ocorrido, orientaram o grupo a ir para delegacia. As informações são da Agência Brasil.
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