Caldeirão Político

Quarta-feira, 12 de Agosto de 2020, 16h:06

Exclusão de Cuiabá e o fim de Mato Grosso

Houve um tempo em que eu era contrário às ideias de divisão do estado por patriotismo, amor à terra natal

JOSÉ ANTONIO LEMOS

Pode até continuar existindo um pedaço de Mato Grosso mantendo seu nome, mas este estado campeão nacional de produção e potencialidades que conhecemos hoje, uma das principais fontes de alimentos para o mundo e uma voz cada vez mais forte e respeitada na federação brasileira, este estado que nos enche de orgulho deixará de existir.

Houve um tempo em que eu era contrário às ideias de divisão do estado por patriotismo, amor à terra natal e essas coisas que pareciam tão antigas e distantes, mas que agora estão em alta com a ascensão conservadora no país.

Embora estes motivos persistam, sigo contra as ambições divisionistas, porém por razões bem mais pragmáticas. Entre outras porque não precisa de mais governos um país que, em média, paga de impostos quase 40% de tudo que produz só para sustentar nos seus três poderes máquinas político-administrativas ineficientes e perdulárias. Certamente, reduzi-los seria melhor.

Ainda mais se tratando de Mato Grosso, um estado que após séculos amargando dificuldades, hoje, se bem gerido, teria sobra em caixa para investir no aumento real da qualidade de vida de sua gente, além dos recursos para bancar o custeio das estruturas administrativas, políticas e de prestação dos serviços públicos necessárias à sua subsistência.

E é neste suado e valioso superávit, fruto do trabalho duro de todos os mato-grossenses, que a classe política está de olho e busca apoderar-se na sua insaciável sanha de poder e riqueza.

Na ânsia pela locupletação, as teses divisionistas caem como uma luva e são trabalhadas a pelo menos três décadas abertamente pelos mais destemidos ou disfarçadas pelo consentimento silencioso dos covardes, favoráveis, mas sem coragem para assumi-las.

Ao invés de investir o excedente produzido pelo povo na promoção da qualidade de vida do próprio povo, querem “torrá-lo” em novas e faustosas pirâmides de cargos públicos sob seu domínio e manipulação. Por anos usaram um discurso embelezado por falácias sem convencer qualquer parcela da população, sem tempo para mutretas no seu trabalho de sol-a-sol.

Ademais, o descrédito da classe política já era tanto que os divisionistas logo optaram por outra estratégia mais ardilosa e sutil.

Pegaram o gargalo logístico, o problema mais grave e urgente do estado cuja solução é pleito unânime dos mato-grossenses, e habilmente o transformaram em uma ferramenta de desconstrução geopolítica.

A logística virou “boi de piranha” com apenas uma sutil mudança no projeto ferroviário consolidado em lei no Plano Nacional de Viação pelo senador Vuolo e no contrato de concessão da Ferronorte: quietos, excluíram a Grande Cuiabá em uma nova malha ferroviária projetada segundo os interesses da pior política, mesmo com uma carga dirigida a ela estimada em 20 milhões de toneladas/ano. Excluídas Cuiabá e sua região metropolitana, natural polo integrador do estado, Mato Grosso se desmancha em três. História para os próximos artigos.

A redenção de Mato Grosso é abrir caminhos em todas as direções e modais, sem exclusões, benvindas a FICO e a Ferrogrão. A intenção de tirar Cuiabá da malha ferroviária estadual que se desenha nos subterrâneos federais com base em mentiras tecnicistas transforma os trilhos de esperança pela grandiosa vocação de Mato Grosso, em arma para destrui-lo.

Não será preciso mais falar em divisão, daqui a pouco ela virá “naturalmente”. E, divididos, voltamos à rabeira da federação, sem voz e sem vez. A menos que a sociedade civil organizada da Baixada Cuiabana, 1/3 da população e do eleitorado mato-grossense com seus líderes leve seu grito direto ao presidente Bolsonaro, eleito contra a mentira e a corrupção. Sem excluídos. E as eleições vêm aí!

José Antonio Lemos dos Santos é arquiteto e urbanista.


Fonte: Brasil Notícia

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