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Terça-feira, 16 de Julho de 2019, 07h:46

Deputada pode ser expulsa do PDT

A rebeldia de Tabata é como um dente do siso da esquerda, compara Thomas Traumann

Fonte: Poder 360

Luis Macedo/Agência Câmara

A deputada Tabata Amaral é um dente do siso na política brasileira. Os últimos molares doem ao nascer. Muitos são arrancados porque não há espaço para acomodá-los na arcada dentária. Como só começam a nascer no final da adolescência, alguns já na fase adulta, são chamados de “dentes do juízo”, como um aflitivo rito de passagem para o período de novas responsabilidades. Tabata incomoda.

Aos 25 anos, estreante na política, Tabata tem uma trajetória que deveria unir louvores da esquerda e da direita. Conseguiu ser rejeitada por ambos os lados. De família de classe baixa da Vila Missionária, na periferia de São Paulo, ganhou dúzias de olimpíadas de ciências e matemática e uma bolsa integral para estudar em Harvard. Formada em Ciências Políticas, ela foi uma das bolsistas dos movimentos do RenovaBr, que lançou 120 candidatos e elegeu 16 nas eleições de 2018. Assim como outros candidatos novatos, ele teve o apoio do investidor Jorge Paulo Lemann, segundo brasileiro mais rico na lista da Forbes. (você pode saber mais sobre o perfil da deputada nas reportagens de Andréia Sadi e Amanda Audi.

Inteligente e arrogante em doses equivalentes, a deputada passou a machucar o nervo da política ao contrariar a decisão unânime da executiva do PDT e votar a favor do relatório base da reforma da Previdência. Além dela, outros 7 dos 27 deputados do PDT (sendo uma mulher) fizeram o mesmo. No PSB, que também fechou questão contra a reforma, a dissidência foi maior. Onze dos 32 deputados do PSB (sendo duas mulheres) votaram a favor do texto-base da reforma, aprovado por 61 votos além do necessário em uma maioria histórica no Congresso. Em tese, os 19 desobedientes do PDT e do PSB podem ser expulsos das legendas e, no limite, perder o mandato parlamentar. Mas é só de Tabata que se fala.

Em artigo na Folha, ela se postou com vítima. “Quando algum membro decide tomar uma decisão que considere responsável e fiel ao que acredita ser importante para o país, há perseguição política. Ofensas, ataques à honra e outras tentativas de ferir a imagem tomam lugar do diálogo. Exatamente o que vivo agora”. Principal nome do PDT, Ciro Gomes, afirmou que a deputada faz “dupla militância” e que movimentos como o RenovaBR e o Acredito! funcionam como “partidos clandestinos”. O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, disse que a deputada defende uma “democracia da conveniência” e “acha bom quando o partido decide como ela quer e ruim quando decide como ela não quer”.

Ironicamente, Tabata não é uma deputada tão infiel assim. Pesquisa feita pelo cientista político Guilherme Duarte mostra que nas 27 votações nominais ao longo da reforma da Previdência, na semana passada, Tabata ficou no mesmo lugar que os deputados do PV, relativamente próximo à média dos votos dos pedetistas e léguas de distância do PSL ou do Novo, os partidos mais ortodoxos da direita. O problema é a postura descolada.

A votação da reforma da Previdência terminou sendo uma derrota acachapante dos partidos de esquerda, incluídos aí PDT e PSB, além de PT e PSOL. O relatório foi aprovado por 378 votos contra 131, uma vantagem maior do que o impeachment de 2016. É inusitado porque até um mês atrás, os partidos de esquerda pareciam mais pragmáticos e propensos a negociar do que o governo Bolsonaro. Através de uma aliança com os partidos do Centrão, eles retiraram da proposta original de Paulo Guedes a exigência de contribuição mínima para os trabalhadores rurais e a alteração das regras para os idosos miseráveis do BPC. Essa mesma aliança funcionou na votação dos destaques, quando os deputados aprovaram a redução do tempo de contribuição mínima de 20 para 15 anos e as regras especiais para a aposentadoria dos professores. Os partidos de esquerda tinham, portanto, até motivos para comemorar uma meia derrota. Preferiram assumir uma derrota inteira e jogar para a plateia de corporações de sindicatos de servidores.

É tudo cálculo político. Emparedada pelo antipetismo e pelo bolsonarismo nas eleições de 2018, a esquerda voltou a conversar apenas dentro da sua bolha, delimitando o espaço de avanço da direita. Ao mesmo tempo se isola.

Ao aceitar um texto-base montando por um liberal como Rodrigo Maia e investir forças no que era possível mudar, Tabata e os infiéis do PDT e do PSB tentam dialogar para além da esquerda, nesse centro pantanoso que hoje recusa Bolsonaro e o PT. São duas táticas válidas, mas que não conseguem conviver no mesmo espaço. Talvez nem no mesmo futuro.

Movimentos como o RenovaBR são inspirados na experiência francesa do En Marche, que elegeu Emmanuel Macron em 2017. Tratam a escolha de candidatos como a seleção de recrutamento de uma empresa. É um método tão válido quanto escolher seus candidatos nos diretórios acadêmicos, sindicatos, igrejas evangélicas, programas policiais ou sucessos de YouTube. Afinal, quem seleciona é o eleitor. O que faz do caso de Tabata ser diferente não é a forma como ela foi escolhida, mas a sua rebeldia calculada em enfrentar os caciques do PDT.

Dentes de siso podem ser extraídos e jogados fora. Ciro Gomes fez seguidas sugestões para que Tabata deixe o PDT. É improvável que ela o faça, uma vez que a legislação permitiria que o partido recuperasse o mandato nesse caso. Sua melhor garantia para manter o mandato e mudar de partido é ser expulsa do PDT, ficando até lá como um molar rasgando a gengiva e incomodando, incomodando, incomodando.

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