Sábado, 07 de Dezembro de 2019

Economia
Segunda-feira, 02 de Dezembro de 2019, 10h:25

Dólar alto

Dólar alto e piora nas contas externas acendem sinal de alerta na economia

Dólar mais alto e piora nas contas externas sempre antecederam crises no país. Cenário acende alerta para o aumento do rombo no balanço entre as transações comerciais, mas especialistas não veem riscos imediatos

Correio Braziliense

A recente turbulência no mercado cambial que fez o dólar registrar recordes sucessivos nesta última semana tem colocado uma luz amarela sobre dados que não estavam no centro das preocupações: o balanço de pagamentos. Números recentes do Banco Central mostram que o rombo das trocas comerciais e financeiras do Brasil com o resto do mundo cresceu acima das previsões em um momento em que a economia anda de lado. Isso ajudou o dólar a renovar picos e chegar até R$ 4,27 durante a semana, pois a tendência é que o rombo aumente no ano que vem se a recuperação na atividade for mais robusta.

No acumulado de janeiro até outubro, o deficit no balanço de pagamentos somou US$ 45,6 bilhões, dado 24,6% acima das estimativas da instituição para o ano, de um saldo negativo de US$ 36,6 bilhões, conforme o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do BC. Apesar de o Ministério da Economia fazer uma correção atípica nos dados preliminares da balança comercial de novembro, apontando para um superavit de US$ 2,7 bilhões no acumulado em quatro semanas em vez de um deficit de US$ 1,1 bilhão, analistas reconhecem que as contas externas entraram no radar dos investidores estrangeiros que antes davam prioridade para o quadro fiscal e o risco de insolvência do país.

As previsões para a balança de pagamentos, que inclui o resultado da entrada e saída de investimento estrangeiro no país, estão sendo revistas. As mais recentes preveem deficit acima de US$ 50 bilhões. A Rosenberg Associados, por exemplo, estima um rombo US$ 56 bilhões, neste ano, e, para US$ 71,5 bilhões, em 2020, considerando um crescimento do PIB de 1%, neste ano, e de 2,5%, no ano que vem. Em outubro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previa deficits mais modestos em corrente do país, de US$ 22,3 bilhões e de US$ 19,6 bilhões, respectivamente.

Historicamente, as grandes crises financeiras do país tiveram início após uma piora no saldo do balanço de pagamentos, inclusive na recessão de 2015 e 2016. Em 2014, o rombo passou de US$ 100 bilhões. O ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen costumava dizer que a inflação aleija e o câmbio mata.

Analistas e economistas ouvidos pelo Correio reconhecem que a mudança na trajetória de crescimento do deficit em conta-corrente do país é um sinal de alerta. Contudo, o contexto hoje é diferente porque o governo tem mais instrumentos do que no passado para enfrentar uma turbulência no mercado de câmbio e conter uma maxidesvalorização do real. O principal deles são reservas internacionais, que somavam US$ 367,5 bilhões até o último dia 28.

Antônio Madeira, economista da LCA Consultores, avalia que o aumento no deficit em conta-corrente não é um problema para o Brasil atualmente. “A Austrália tem deficit desde 1991 e ninguém fica preocupado. Já a Argentina não tem saldo negativo em conta-corrente, atravessa uma grave crise financeira”, compara. “Todas as crises brasileiras começaram quando houve um aumento forte no deficit em conta-corrente. Mas elas ocorreram em um momento em que a política fiscal era insustentável e o país acabou entrando em uma crise cambial. Hoje, o aumento desse deficit em conta-corrente não é o fim do mundo. Nem sempre ele é ruim. Não é possível ter uma visão maniqueísta como no passado. As condições hoje são outras. Hoje o contexto é outro. É outra realidade”, explica.

O fluxo cambial brasileiro pode melhorar quando as exportações podem se recuperar, caso a economia volte a crescer, segundo Madeira. “Os recursos de empresas exportadoras ficaram lá fora e isso diminui a oferta da moeda. Em parte, essa desvalorização do real não é uma crise de confiança”, explica. Se o país crescer mais, ele consegue melhorar as contas públicas e pode atrair investimentos estrangeiros, podendo ajudar a financiar o deficit em conta-corrente. “No momento, não existem grandes riscos. Mas essa melhora de cenário depende do avanço das demais reformas estruturais”, reforça.

O aumento do deficit em conta-corrente “é uma fraqueza pontual”, no entender de Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central. “Quando o mundo cresce pouco, o país também perde a capacidade de crescimento”, explica. “A desvalorização recente do real frente ao dólar teve mais causas externas do que domésticas e a piora no saldo em conta-corrente não é tão preocupante quanto a questão fiscal”, completa.

Assim como o ex-diretor do BC, o especialista em contas públicas Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), também demonstra mais preocupação com as contas públicas do que com a balança de pagamentos. “Numa economia pouco competitiva e com baixa produtividade, como a nossa, a recuperação implicará piora do deficit em conta-corrente via aumento de importações. Mas é um risco controlado porque temos reservas elevadas e alto nível de investimento estrangeiro direto”, avalia. Ele lembra que a redução no tamanho do rombo das contas públicas neste ano não tranquiliza as preocupações em relação ao desequilíbrio fiscal, porque essa queda é resultado de receitas não recorrentes, como concessões de petróleo e não de um efetivo corte nos gastos obrigatórios.

Analistas destacam que as condições macroeconômicas são relativamente favoráveis, apesar de a economia ainda crescer pouco, na avaliação dos analistas. O governo conseguiu aprovar a reforma da Previdência, o que ajuda no equilíbrio fiscal; a inflação está controlada, abaixo da meta de 4,15% ao ano; a Selic (taxa básica de juros) está no menor patamar da história, de 5%; e o risco país está relativamente baixo se comparado com o passado. Mas o câmbio acabou se descolando desses fundamentos, ressalta a economista Julia Gottlieb, do Itaú Unibanco. “O investidor estrangeiro estava sempre preocupado com o fiscal. Agora, também vai olhar para o deficit da balança de pagamentos e para o crescimento. Se o país não crescer, o país vai ficar mais exposto”, alerta o economista especializado em mercado de câmbio Gustavo Cruz.

Uma série de motivos para a desvalorização nos últimos dias foi citada pelos analistas. Eles destacam que os juros estão baixos e provocaram uma debandada de investidores estrangeiros. Além disso, citam a falta de crescimento global em um ambiente de guerra comercial entre Estados Unidos e China, que tem afetado o comércio mundial, derrubando os preços de commodities e afetando as exportações do Brasil. Um consenso entre eles é que as declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre câmbio e sobre uma possibilidade da volta de um AI-5 para conter manifestações abalaram a confiança nas instituições e ajudaram a fortalecer o dólar.

“A queda nos juros e a sazonalidade de fim de ano, com empresas enviando dividendos para a matriz, tem ajudado a pressionar o dólar. O ambiente está com muitos ruídos. A fala do ministro teria sido ignorada pelo mercado se o ambiente não estivesse favorável à alta do dólar. O mercado está frágil para que notícias ruins tenham impacto”, destaca Arnaldo Curvello, sócio-diretor e gestor da Ativa Investimentos. Na avaliação do executivo, o mercado aproveitou o momento para desafiar o Banco Central, que vinha se mostrando tranquilo nas operações de câmbio. “Agora se sentiu convidado a estabilizar o preço porque o mercado acabou desafiando o BC para ver o tamanho do arsenal que ele está disposto a colocar nessa briga”, completa.
Risco país

Nem o risco país estar relativamente baixo em comparação com o passado não ajudou a afastar os donos do chamado “capital ruim”, porque não são investimentos de longo prazo. O contratos de cinco anos do CDS (Credit Default Swap), um dos principais indicadores de risco soberano, encerrou novembro com alta de 6,34%, mais queda de 40,35% no ano, 124,3 pontos. Vale lembrar que esse patamar é alto se comparado com países desenvolvidos ou mesmo emergentes, como China, Índia e Chile.

 

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