Terça-feira, 20 de Outubro de 2020

Cinema
Quinta-feira, 24 de Setembro de 2020, 14h:51

NETFLIX

O Dilema das Redes: Crítica do documentário da Netflix

Profundo no superficial, documentário da Netflix vem chamando a atenção por sua temática alarmante.

Adoro Cinema

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Ao assistir O Dilema das Redes, recente documentário desenvolvido pela Netflix, é comum que tenhamos alguns dos seguintes questionamentos: o tempo que passamos acessando redes sociais e outras ferramentas de interação online pode ser considerado saudável? Será que já estamos tão viciados na facilidade com a qual a informação chega que qualquer coisa diferente acaba parecendo entediante? Existe de fato uma correlação entre novas variantes em casos de depressão e suicídio em jovens com o aumento gradativo do uso das redes sociais?

Provavelmente, você já se fez alguma destas perguntas em algum momento nos último anos. A questão aqui é: onde elas te levaram? Houve de fato alguma mudança a partir delas? Por mais irônico que pareça, esta não apenas é uma reflexão importante para nós como espectadores, mas também é a síntese da razão pela qual O Dilema das Redes poderia ter sido mais eficiente em sua mensagem final.

Inicialmente, a proposta do documentário é bastante interessante — e adianto que, mesmo não tão eficiente, ele acaba saindo com saldo positivo — e busca entrevistar ex-líderes, CEOs e gerentes de grandes corporações, como Google, Twitter, Facebook e Instagram, ouvindo seus relatos sobre como os algoritmos foram criados para servir uma ferramenta fácil de atração e como eles próprios decidiram abandonar os projetos ao verem a monstruosidade que os mesmos haviam se tornado. Em uma época onde um algoritmo pode até mesmo escrever um roteiro, os dados soam como alarmantes, é claro.

 

Sabendo muito bem como planejar uma narrativa documental, a Netflix inicia o filme com o tom de mistério característico dos bastidores: entrevistados se acomodando na cadeira, parando para checar as notificações no celular, suspirando, encontrando dificuldades para começar a falar... a informalidade que já nos deixa curiosos a partir dos primeiros segundos.

Como a veia documental é a melhor coisa que a Netflix possui atualmente (não a toa é onde a plataforma mais conquista prêmios em festivais), o longa começa com um ótimo ritmo e vai nos colocando aos poucos dentro da narrativa. Os primeiros momentos negativos começam a surgir quando entram em cena algumas escolhas narrativas duvidosas, como uma dramatização de uma família que não consegue interagir pessoalmente por causa do vício nas redes sociais.

Digna de um programa barato da TV aberta, a simulação simplesmente não encaixa no restante do tom e das entrevistas, que são ilustradas de maneira sutil e cativante, e acaba transformando o documentário em algo quase conspiracionista, fazendo com que uma mensagem importante acabe perdendo boa parte de sua força.

Caso esta dramatização fosse o único problema, o curto tempo de tela de pouco mais de 1h30 de documentário é ocupado também por outros subterfúgios de existência incompreensível, como quando o filme mostra como funciona a venda de anúncios para redes como o Facebook. Sendo a venda de anúncios uma das partes mais importantes de todas — que inclusive rende um documentário completo apenas sobre isso —, a direção escolhe ir para um caminho mais expositivo e óbvio, mesmo com tantas coisas pertinentes para falar sobre isso, como o processo milionário que levou Mark Zuckerberg ao tribunal.

Tudo isso torna o documentário quase uma autocrítica inconsciente. Estamos todos tão desinteressados na informação consistente, tão acostumados ao que nos é mostrado de maneira óbvia, que precisamos literalmente ver uma família chorando pelo vício em celular, ou uma bancada de empresários vigiando a população, para assimilar a mensagem de que é preciso ter atenção às redes sociais.

Esse nosso cansaço e desinteresse é refletido justamente na maneira como a direção de O Dilema das Redes decide apresentar o problema através de saídas fáceis. No entanto, como eu já disse, o saldo consegue (por pouco) ser positivo. O documentário funciona como conteúdo de acesso simples, que permite uma abrangência muito maior. Veja, não é um problema trazer a simplificação de assuntos complicados, o ponto é o que se faz a partir desta descomplicação. Que mensagem você quer trazer?

O Dilema das Redes traz a mensagem muito pertinente de que já não somos mais seres privados de absolutamente nada a partir do momento em que logamos na primeira rede social — e isso é algo relevante a ser debatido. Sua eficácia, porém, teria sido muito maior se ele tivesse ido até onde era possível explorar o assunto a partir de entrevistas com tantas figuras poderosas e importantes. Logo, a questão aqui continua sendo esta: o que fazemos com toda essa informação?

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