Sábado, 26 de Setembro de 2020

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Quarta-feira, 05 de Agosto de 2020, 17h:15

ROSANA LEITE

Corpos de mulheres e a Covid-19

Com momento pandêmico, fica evidente necessidade de pensar inúmeras situações

ROSANA LEITE

Com o momento pandêmico vivenciado, fica evidente a necessidade de se pensar em inúmeras situações. É certo que o cuidado, em regra, muito representa no universo do gênero feminino. E quanto às cuidadoras? Quais os desafios estão sendo enfrentados neste momento por elas? Como é estar trabalhando na área da saúde, sem o contato com os filhos e filhas? O trabalho remoto pode ser exercido por todas?

 

Em primeiro raciocínio, o cuidado envolve solidariedade, que se compraz em diversos adjetivos, além de compromisso, bondade e simpatia. A disposição física demanda possibilidade de mobilização corporal para o desempenho da atribuição. Já a cognição é a identificação de quem, ou, do que, está recebendo a atenção.

 

Quem são aquelas que possuem a possibilidade de laborar em home office? E quais delas precisam estar na chamada “linha de frente”? Aquelas que possuem alguma comorbidade, como poderão solucionar a obrigatoriedade em voltar a desenvolver o labor?

 

Fica evidente que as maiores adversidades são por elas enfrentadas. São delas as consequências em ter que solucionar as responsabilidades administrativas, dentro e fora de casa. A função com invisibilidade e sem remuneração em cuidar dos entes queridos, em regra, é delas. As duplas e triplas jornadas são realidade, sendo ainda mais sentidas em tempos de pandemia.

 

Nos locais de trabalho, é a mulher a organizadora, sem o qual não existe funcionamento. Nas residências, as famílias se aparelham por obra delas. Quando algo sai desastroso, elas são as principais culpadas, carregando cargas maiores que as “carcaças”.

 

O ciclo menstrual a elas pertence. A alteração do nível do sangramento pode variar com o aspecto sentimental. A emoção, segundo a medicina, se encontra no mesmo lado do córtex cerebral da produção hormonal. Os estresses, responsáveis por doenças psicossomáticas, perturbações no sono, e consumo de açúcares e carboidratos, prejudicam a produção da insulina, estrogênio e progesterona. São os famosos “gatilhos”.

 

E aqui cabe recordar o mundo de desigualdades, muito sentido por mulheres, primordialmente, pelo patriarcalismo. O care é natural da existência feminina. Elas, aos poucos, percebem e conhecem as sensações. O corpo não vem isolado das vivências. Nele tudo se reflete. Violências, desrespeito e discriminações machucam corpos de mulheres!

 

E o que esses corpos sentem? Ele cansam, doem, e envelhecem, todos os dias. Para elas, fica mais latente. Elas são as maiores protetoras. Os serviços de saúde e assistência muito devem a elas. Inclusive, no início, sofreram sobremaneira com a falta de equipamentos individuais de proteção, e, após, com o uso excessivo deles. Máscaras, luvas, álcool em gel, lavagem constante das mãos, vigiar para não encostar com frequência no rosto, refletem tempos de coronavírus. As mudanças foram reais.

 

Com a possibilidade alta de infecção pelo vírus tão “grave”, onde não existem medicamentos à disposição, muito menos vacinas, como elas podem voltar ao trabalho? Quem será responsável pelo cuidado com os seus rebentos? Poderiam elas os deixar com os avós, já que eles fazem parte do grupo de risco pela idade avançada? Quem poderia cuidar dos filhos e filhas dessas cuidadoras, se as escolas e creches estão impossibilitadas de os receber? Como trabalhar fora com a possibilidade de “carregar” tão devastador vírus para casa?

 

A violência doméstica e familiar é, infelizmente, outro desafio do gênero feminino em era de isolamento social. São dois medos momentâneos: o vírus e os agressores.

 

Não há como subestimar o cuidado, porquanto, o mundo dele necessita!

 

Ressalto que as menções do texto fazem parte da aula de mestrado em sociologia da UFMT, da disciplina “Sociologia do corpo, do cuidado a partir das políticas de sensibilidades” ministrada pela Professora Silvana Bitencourt, que possui pós-doutorado em Ciências Sociais, é escritora, além de ser exímia cuidadora!

 

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.

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